sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Atendendo a pedidos: "A vida como ela é para crianças" (versão sintética)

V. Moral da História?
Era uma vez um cigarro e um gorila.

(Por favor, aqui não cabem argumentos como “gorilas não fumam” ou coisas do tipo. Trata-se de uma fábula, meu Deus.)

Bem, o gorila trabalhava cantando e fumando a primavera, o verão, o outono e o inverno inteiros. Era gentil e feliz, um exemplo de cidadão, muito querido e admirado por todos. E assim viveu, feliz para sempre.

Fim
Moral da história: o bom sujeito nada tinha de perfeito.
Ou ainda: Têm moral as boas histórias?

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Simones ou Antônios....

Então eu vou fazer assim... postar coisas bem pequenas!!!

Depois de ler os longos (porém ótimos) textos das meninas, fiquei pensando nas pessoas que tem pouco tempo, mas querem acompanhar esse tão comentado blog, escrito por pessoas inteligentíssimas.
Pensei então "cá comigo" em postar coisinhas curtas, mas interessantes o suficientes para que o leitor passe rapidamente e saia com algo na cabeça pra pensar o resto do dia. Vão aparecer letras de músicas, trechos de livros, poemas e afins, contos. Vou tentar transcrever comentários que ouço na rua, de estranhos e não estranhos. Vou fazer perguntas estranhas que geram respostas ainda mais estranhas, vou indicar sites, links e por ai vai.... como eu disse, coisas bem pequenas.

Ah, peço encarecidamente que desculpem o meu português ruim. Nem escrevo tão mal, mas perto dessas meninas, sou um mero amador na arte da escrita. Sim eu sei que existe dicionário, e para provar que utilizo o mesmo, dou início ao meu primeiro mini-post (assim vou chamá-los à partir de agora) no parágrafo a seguir.

Como eu já disse, deixarei aqui pequenas coisinhas sobre assuntos diversos. Uma delas justifica o título do meu mini-post.
Vez ou outra me aventuro como compositor e um dia resolvi comprar um dicionário de sinônimos e antônimos, pra me ajudar um pouco. Ajuda de vez em quando, mas nem sempre.
O que farei então é pegar uma palavra do último post, nesse caso o da Fafau, e deixar aqui as "simones" e os "antônios" dela.
Quem quiser pode sugerir alguma palavra e esperar pra ver se ela aparece.
Vai ser assim....

Simones ou Antônios_001

casamento_ matrimônio, consórcio, conúbio, enlace, esponsais, núpcias, himeneu, tálamo, união.

Foi um começo...depois tem mais!






A Vida como Ela é para Crianças (Continua...)

IV. Felizes para Sempre

Nunca um dia de escola fora tão aguardado. Ainda no pátio, ansioso, Henrique procurou por seu melhor amigo:
- E aí, João, perguntou?
- Perguntei! Mas o negócio é enrolado. Agora não vai dar. No recreio, no recreio...

Henrique, então, viu refletido nos óculos de João um grande vulto. Era ela: a professora. Teria que esperar ainda mais. Não se sabe até hoje sobre o que foi a aula aquele dia. Certo é que não foi sobre a questão que verdadeiramente afligia Henrique e João. Para eles, foi a aula mais longa do mundo.

Finalmente, os sinos soaram: era hora do recreio!

Nem bola jogaram aquele dia:
- O negócio é complicado, Henrique. Minha mãe ficou nervosa e eu não entendi muito bem a resposta. Acho que ela também não sabe direito.
- Mas o que ela falou, João? Conta logo.
- A história é longa e difícil de explicar. Ela disse que isso já existe há muito tempo e tem a ver com Deus, com a criação do homem. Tem também uma parte muito estranha que envolve uma maça.
- Maça? Mas como assim?
- Sei lá, Henrique. Minha mãe estava nervosa. Preferi não perguntar mais coisas. Acho que tem algum segredo aí. Ela perguntou muito porque eu queria saber isso...
- João, tente se lembrar das palavras que ela usou.
- Ela falava sem parar. Eu não me lembro de tudo. Mas ela falou sobre um véu branco, padres, vontade de ter filhos... O negócio é complicado, Henrique. Acho melhor pesquisar na internet.
- Mas você perguntou daquele jeito que a gente combinou? Falou: “Mãe, como é casamento?”
- Falei, pô. Juro.

Subitamente, os sinos soaram: terminara o recreio. Para eles, foi o recreio mais curto do mundo.

Henrique estava arrasado. O que poderia ser tão complicado que não dava para explicar com calma? Tinha, agora, mais uma dúvida: se é assim, porque tanta gente casa?

Os dias passaram enquanto Henrique tentava conciliar a sua nova rotina, cheia de casas, horários e regras. De alguma maneira, a conversa com João o havia ajudado. Era tudo tão complicado, que seus pais não poderiam mesmo explicar porque se separaram. Havia um segredo. E esse devia ser um segredo horrível!

Quando domingo chegou afinal, Henrique fugiu para a casa de seus avôs. Lá morava sua única tia solteira, que era também sua madrinha. Ela certamente não entendia nada de casamento, mas Henrique sabia que nela ele podia confiar. Começou por sua questão mais recente:
- Tia, por que as pessoas casam tanto?

Ela riu e respondeu em tom de brincadeira:
- Por causa dos domingos, meu filho.

Henrique, claro, não entendeu. Mas gostou do tamanho e da rapidez da resposta. Além disso, sua tia não tinha ficado nervosa e parecia estar se divertido com a conversa. Então, tomou coragem e lançou:
- Mas tia, como é casamento?

Novamente ela riu, mas dessa vez pensou um pouco antes de responder.
- Eu não sei exatamente, meu filho. Mas acho que é como uma vontade muito doida de ver o outro todo dia.

Seguiu-se um delicioso silêncio. Finalmente uma resposta que ele entendia! Henrique não via a hora de contar para João.

No dia seguinte, no pátio da escola, decidido a não esperar o recreio, Henrique procurou por seu melhor amigo:
- João, descobri tudo! Casamento é como uma vontade muito doida de ver o outro todo dia.
- Nossa! Ponderou João.
- Pois é. Pensei muito sobre isso no domingo e precisava te falar. Até porque, é um pouco estranho, mas descobri que somos casados.
- Ih é! Legal.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A Flor

Tenho certeza que se Saint Exupery estivesse vivo, e eu o convidasse a escrever nesse blog, ele toparia no ato. Então, partindo dessa premissa suuuper verdadeira, me permiti transcrever aqui dois trechos do Pequeno Príncipe.

São belas passagens, porque falam lindamente de relacionamento a dois. Toda vez que vejo meus relacionamentos se acabarem, volto a elas e releio cada palavra com muita atenção, para nunca mais esquecer.


"Pude bem cedo conhecer melhor aquela flor. Sempre houvera, no planeta do pequeno príncipe, flores muito simples, ornadas de uma só fileira de pétalas, e que não ocupavam lugar nem incomodavam ninguém. Apareciam certa manhã na relva, e já à tarde se extinguiam. Mas aquela brotara um dia de um grão trazido não se sabe de onde, e o principezinho vigiara de perto o pequeno broto, tão diferente dos outros. Podia ser uma nova espécie de baobá. Mas o arbusto logo parou de crescer, e começou então a preparar uma flor. O principezinho, que assistia à instalação de um enorme botão, bem sentiu que sairia dali uma aparição miraculosa; mas a flor não acabava mais de preparar-se, de preparar sua beleza, no seu verde quarto. Escolhia as cores com cuidado. Vestia-se lentamente, ajustava uma a uma sua pétalas. Não queria sair, como os cravos, amarrotada. No radioso esplendor da sua beleza é que ela queria aparecer. Ah! Sim. Era vaidosa. Sua misteriosa toalete, portanto, durara dias e dias. E eis que uma bela manhã, justamente à hora do sol nascer, havia-se, afinal, mostrado.

E ela, que se preparava com tanto esmero, disse, bocejando:

- Ah! Eu acabo de despertar... Desculpa... Estou ainda toda despenteada...
O principezinho, então, não pôde conter o seu espanto:
- Como és bonita!
- Não é? Respondeu a flor docemente. Nasci ao mesmo tempo que o sol...

O principezinho percebeu logo que a flor não era modesta. Mas era tão comovente!

- Creio que é hora do almoço, acrescentou ela. Tu poderias cuidar de mim...
E o principezinho, embaraçado, fora buscar um regador com água fresca, e servira à flor.

Assim, ela o afligira logo com sua mórbida vaidade. Um dia por exemplo, falando dos seus quatro espinhos, dissera ao pequeno príncipe:

- É que eles podem vir, os tigres, com suas garras!
- Não há tigres no meu planeta, objetara o principezinho. E depois, os tigres não comem erva.
- Não sou uma erva, respondera a flor suavemente.
- Perdoa-me...
- Não tenho receio dos tigres, mas tenho horror das correntes de ar. Não terias acaso um pára-vento?

"Horror das correntes de ar... Não é muito bom para uma planta, notara o principezinho. É bem complicada essa flor..."

- À noite me colocarás sob a redoma. Faz muito frio no teu planeta. Está mal instalado. De onde eu venho...

Mas interrompeu-se de súbito. Viera em forma de semente. Não pudera conhecer nada dos outros mundos. Humilhada por se ter deixado apanhar numa mentira tão tola, tossiu duas ou três vezes, para pôr a culpa no príncipe:

- E o pára-vento?
- Ia buscá-lo. Mas tu me falavas...

Então ela redobrara a tosse para infligir-lhe remorso.
Assim o principezinho, apesar da boa vontade do seu amor, logo duvidara dela. Tomara a sério palavras sem importância, e se tornara infeliz.

"Não a devia ter escutado - confessou-me um dia - não se deve nunca escutar as flores. Basta olhá-las, aspirar o perfume. A minha embalsamava o planeta, mas eu não me contentava com isso. A tal história das garras, que tanto me agastara, me devia ter enternecido..."

Confessou-me ainda:

"Não soube compreender coisa alguma! Devia tê-la julgado pelos atos, não pelas palavras. Ela me perfumava, me iluminava... Não devia jamais ter fugido. Devia ter-lhe adivinhado a ternura sob os seus pobres ardis. São tão contraditórias as flores! Mas eu era jovem demais para saber amar."

Creio que ele aproveitou, para evadir-se, pássaros selvagens que imigravam. Na manhã da partida, pôs o planeta em ordem. (...) Ele julgava nunca mais voltar. E, quando regou pela última vez a flor, e se dispunha a colocá-la sob a redoma, percebeu que estava com vontade de chorar.

- Adeus, disse ele à flor.

Mas a flor não respondeu.

- Adeus, repetiu ele.

A flor tossiu. Mas não era por causa do resfriado.

- Eu fui uma tola, disse por fim. Peço-te perdão. Trata de ser feliz.

A ausência de censuras o surpreendeu. Ficou parado, inteiramente sem jeito, com a redoma no ar. Não podia compreender essa calma doçura.

- É claro que eu te amo, disse-lhe a flor. Foi por minha culpa que não soubeste de nada. Isso não tem importância. Foste tão tolo quanto eu. Trata de ser feliz... Mas pode deixar em paz a redoma. Não preciso mais dela.
- Mas o vento...
- Não estou assim tão resfriada... O ar fresco da noite me fará bem. Eu sou uma flor.
- Mas os bichos...
- É preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas. Dizem que são tão belas! Do contrário, quem virá visitar-me? Tu estarás longe... Quanto aos bichos grandes, não tenho medo deles. Eu tenho as minhas garras.

E ela mostrava ingenuamente seus quatro espinhos. Em seguida acrescentou:

- Não demores assim, que é exasperante. Tu decidiste partir. Vai-te embora!
Pois ela não queria que ele a visse chorar. Era uma flor muito orgulhosa...


(...)
disse a raposa ...: - Anda, vai ver outra vez as rosas. Vais perceber que a tua é única no mundo. Quando vieres ter comigo, dou-te um presente de despedida: conto-te um segredo.

O principezinho lá foi ver as rosas outra vez.

- Vocês não são nada parecidas com a minha rosa! Vocês ainda não são nada - disse-lhes ele. (...) E as rosas ficaram bastante incomodadas.
- Vocês são bonitas, mas vazias - ainda lhes disse o principezinho. - Não se pode morrer por vocês. Claro que, para uma pessoa qualquer, a minha rosa é perfeitamente igual a vocês. Mas, sozinha, vale mais do que vocês todas juntas, porque foi a ela que eu reguei. Porque foi a ela que eu pus debaixo de uma redoma. Porque foi a ela que eu abriguei com o biombo. Porque foi a ela que eu matei as lagartas (pelo menos duas ou três, por causa das borboletas). Porque foi a ela que eu ouvi queixar-se, gabar-se e até, às vezes, calar-se. Porque ela é a minha rosa. E então voltou para o pé da raposa e disse:

- Adeus...
- Adeus - disse a raposa. - Vou-te contar o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos...
- O essencial é invisível para os olhos - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer. -Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... - repetiu o principezinho, para nunca mais esquecer.
- Os homens já se esqueceram desta verdade - disse a raposa. - Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por tudo o que está preso a ti. Tu és responsável pela tua rosa...
- Sou responsável pela minha rosa... - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer."

(O Pequeno Principe - Saint Exupery. Texto retirado do site http://www.kateweiss.art.br)

terça-feira, 4 de agosto de 2009

A Vida Como Ela é para Crianças (é melhor ir se acostumando)

Desde que me tornei mãe, em 8/5/2008, sinto vontade de escrever contos infantis. Talvez seja mais correta a expressão utilizada por minha irmã Elisa: “cometer”. Sinto vontade de cometer contos infantis!
Foi também Elisa quem sugeriu o inspirador nome da minha primeira obra. Trata-se de uma coletânea de contos esclarecedores, pelo menos para mim. É, claro, uma obra em construção.
Com vocês, os três primeiros contos de: “A Vida como ela é para Crianças. É Melhor Ir se Acostumando...”

I. O Bizarro Mundo da Fantasia

Chovia muito. Antonio e Zeca não podiam jogar bola. Zeca, então, puxou um assunto.

- Tuninho, você acredita em super homem?
- Claro, pô. Respondeu Antonio.
- Mas você acha que ele existe mesmo, voa e tudo?
- Claro. Eu hein, Zeca. Está maluco? Ele é amigo do meu pai.
- Eu sei, do meu também.

Zeca se calou por alguns minutos. Era tão difícil falar sobre essas coisas.

- Você já viu o super homem mesmo, assim, de olho aberto? Insistiu Zeca.
- Acho que sim... Nunca pensei nisso de olho aberto. Mas acho que sim. Sempre que eu quero, vejo o super homem.
- Eu também, Tuninho. Esse é o problema. Se a gente pensar nele ao mesmo tempo e em casas separadas, para quem ele aparece de verdade?

Antonio estava perplexo.

- Ando desconfiado de algumas coisas. Continou Zeca. Outro dia falei para a minha mãe que a nossa professora chegou atrasada porque o carro dela era um Transformer e teve que cumprir uma missão. Ela ficou uma fera, disse que a professora era mentirosa e que iria à escola e tudo!
- Mas a professora nunca disse isso, Zeca! Retrucou Antonio.
- Eu sei. Mas como a minha mãe pode saber disso? Ela nunca vai à aula.
- Sei lá, Zeca. Os adultos são muito estranhos.
- Pois é, Tuninho. Estou bolado com as coisas que os adultos dizem. Preciso entender a diferença entre verdade, fantasia e mentira. Mas só tenho você para perguntar.
- Nossa, Zeca. Eu não sei. Mas acho que fantasia é bom, mentira é ruim e verdade é tudo aquilo que os adultos falam.
- Estou bolado, Tuninho. Tenho pensado muito no Papai Noel...
- Ah não, Zeca. O Papai Noel não.

II. Não faça com os Outros o que não Gostaria que Fizessem com Você. Mas atenção!

Era uma vez uma menininha, muito bem educada, que sempre pensava antes de agir:

- Eu ficaria feliz se fizessem isso comigo?

Mais complicado era quando a menininha queria falar:
- Eu gostaria de ouvir o que tenho a dizer?

Eram reflexões filosóficas.

Por mais que a menininha estivesse sempre alerta, muitas vezes perdia o compasso de brincadeiras e de conversas com amigos. Piadas, então, perdia quase todas.

Mas valia a pena. Ela nunca se metia em brigas bobas e quando brigava, quase sempre, tinha razão. Assim, sobrava tempo para ela se preocupar com coisas muito mais interessantes:

- Por que o mar é salgado se a chuva é doce? Aliás, a chuva não é doce. Por que, então, falam assim?
- Por que a terra gira tanto? É só para ficar de dia e poder chegar o verão?
- É verdade que as baleias já andaram? Quem viu?
- Pelo amor de Deus, como faço para respirar de baixo d´água?
- Se todo mundo pensa antes de agir e falar, por que tem tanta confusão no mundo?

A menininha passava muito tempo com a sua avó, que era quem mais praticava com ela as reflexões filosóficas.

A avó sempre ouvia com atenção e buscava com muito entusiasmo respostas para os mistérios levantados pela menininha. Sobre esse último e grande mistério, porém, ela apenas suspirou e disse:

- Não sei, querida. Algumas pessoas simplesmente não se importam.

A menininha, como sempre, refletiu antes e disse em seguida:

- Que pena. Ainda bem que a gente não é assim!

III. A Morte e a Morte

Era uma vez um cachorrinho chamado Freud. Freud morava com os seus donos muito antes da chegada de Tomás. Para Tomás, as pessoas mais importantes do mundo eram: mamãe, papai e Freud. Dependendo do dia, essa ordem era outra.

Um dia, Freud não acordou bem. A verdade é que havia algum tempo que ele andava diferente. Já não ouvia, enxergava e comia direito e gostava mesmo era de ficar quieto num canto. No dia em que Freud não acordou bem, Tomás voltou correndo da escola para ficar com ele, mas encontrou o canto vazio.

Encontrou, porém, os seus pais calmos e alegres, esperando para lhe contar uma novidade: Freud havia viajado! Estava em uma fazenda linda, enorme, correndo feliz com outros cachorros por campos floridos ao som de passarinhos. Tomás não entendeu nada:

- Como assim? Freud já não corre e também quase não vê e escuta.

Tudo isso havia passado. Freud agora vivia feliz e saltitante em uma linda fazenda muito, mas muito distante e que não aceitava visitas. Tomás sabia que às vezes era difícil entender os adultos, mas estava agora profundamente decepcionado com os cachorros também.

Não disse a ninguém, mas dormiu chorando essa noite.

No dia seguinte, na escola, Tomás não conseguiu esconder completamente a sua tristeza e contou para os amigos mais próximos sobre a traição de Freud.

Para sua surpresa, aquela era uma fazenda muito popular. Os cachorros do João e do Roberto também adoeceram e foram para lá, sem se despedirem. O canário do Eduardo fez a mesma coisa. Agora, traição maior aconteceu com a Clarinha: primeiro a avó, e depois o avô dela foi para lá, sem nem avisar.

Não restava dúvida. Era uma conspiração e seus pais estavam envolvidos! Todos viviam felizes na fazenda distante e nem pensavam neles. Não chorariam mais!

Selaram, então, um pacto secreto: jamais iriam para a tal fazenda. E quando ficassem velhinhos ou doentes, se juntariam, para morrer como tem que ser, entre amigos queridos.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Quando os Tios Sukitas se Reunem

Eram sete e meia da noite. E estava decidido: nada mais de ficar falando de todas as mazelas do trabalho ou de todas aquelas paixões e amores que não deram (e não dão) certo, ou de como as pessoas estão malucas, e como está difícil de se relacionar com o sexo oposto. A decisão estava tomada: agora era sair a campo para se divertir tão somente, e isso significa que não importa o lugar, as pessoas e se está chovendo ou se está sol. O importante é ir em busca daquilo que se gosta.

E nesse sábado decidimos que gostamos de música da jovem guarda, dos anos 60 e de samba. Beleza. Nosso destino seria, então, o espaço cultural da ação da cidadania. Era o que anunciava o segundo caderno. Um antigo armazém reformado no bairro da Sáude, no Centro da Cidade, onde iam rolar shows de música dos anos 60 paralelamente à uma roda de samba com Nelson Sargento. Humm, delícia! E já estava eu me imaginando dançando o ie-ie-ie, e pulando ao som do twist and shout dos Beatles e, quando enjoasse, um sambinha de raiz para relaxar. Eclético, livre, alternativo, perfeito!

A programação começava cedo, às 20.30 hrs, o que é muito esquisito para os padrões cariocas. Eu devia ter desconfiado. Mas a animação com essa nossa nova vida, de muito futuro pela frente, me fez, mesmo cansada, tomar um banho correndo, me arrumar, pular num taxi e me dirigir pra casa da Marie, de onde partiríamos para os finalmente. Viemos animadamente conversando e cantando antigos sucessos no taxi.

A rua do espaço cultural estava deserta, mas em frente ao espaço já tinha algum certo movimento de carros estacionando e taxis parando. Foi quando olho pra fora da janela do carro e avisto aquilo que seria a nossa noite de fato, a realidade nua e crua na nossa frente: a reunião dos Tios Sukitas e das mulheres cinquentonas, colecionadoras de Faça Fácil, que há tempos apagaram a palavra "vergonha" do dicionário. Ah! E também de todos aqueles nossos professores de história e geografia dos tempo de colégio, o que significa dizer que havia uma profusão de homens carecas e grisalhos com rabinhos de cavalo e barriguinhas de chopp.

Meu Deus, Marie, olha isso! Estamos indo para os 40 anos de formatura do colégio da minha mãe! Escuto uma gargalhada e era a do taxista, que só podia ser um sádico, pensei. Marie, muito otimista, tentou me tranquilizar lembrando que era importante a nossa presença (aliás, quase missão) pra baixar a faixa etária do lugar. Mas que, no final, éramos mulheres livres e independentes e não tínhamos que ir pro ie-ie-ie, não, que podíamos sair dali a qualquer momento. Mas como somos bravas e fortes e filhas do norte (ou melhor, da Zona Norte) resolvemos enfrentar nossa missão e entramos no lugar.

Corta a cena apenas para contar pra vocês que o lugar é absolutamente incrível. Absurdamente grande e belo. Aquela beleza dos antigos armazéns, com um pé direito de 20 metros, tijolos e ferros aparentes. É quase como entrar numa dimensão paralela.

Bom, e lá estávamos nós, e eles: a jovem, agora velha, guarda que olhavam pra gente com um olhar muito do inquisidor, como se fôssemos do DOPS entrando na festa do grêmio estudantil. Ah, sim! Porque esqueci de falar que o nome da festa era "1968: 40 anos depois". E isso explica tudo. A estranheza dos olhares para duas meninas perdidas no meio de uma outra época. Para falar a verdade, nem os culpo, porque eu mesmo olhava para a Marie e ela para mim e nos perguntávamos o que diabos estávamos fazendo ali naquela noite de sábado.

O show acabou começando super tarde e como não poderia deixar de ser a banda era brega toda vida. Uma coisa meio anos 80, mas que tocava algumas músicas cliché dos anos 60, e os homens da banda estavam de abóbora e as mulheres de amarelo, o que para mim é um erro crasso (homem algum pode vestir abóbora, isso definitivamente não é cor, e amarelo também tenho lá minhas dúvidas). E ao mesmo tempo que eu e Marie tentávamos dançar alegre e displicentemente, tipo não-estamos-nem-aí-viemos-para-nos-divertir, não conseguíamos relaxar totalmente porque, volta e meia, éramos surpreendidas pelos nossos ex-professores de história a nos cercar e nos olhar com aquele olhar te-quero-demais. A gente até poderia se sentir lisonjeadas etc e tal, mas quando um deles veio conversar comigo, ele gritava tanto no meu ouvido e cuspia tanto em mim que cheguei à conclusão de que da mesma forma que provavelmente ele era surdo deveria também ser meio cego, então.... mudemos de parágrafo.

A roda de samba, bem, descobrimos que o Nelson Sargento apesar de animado -- porque entrou para cantar quase 1 da manhã -- não tem mais um pingo de voz, coitado! o que fez com que a roda de samba não fosse do Nelson Sargento, mas de outra pessoa que nunca vimos mais gorda. Foi quando então nossos olhares, meu e da Marie, se cruzaram e decidimos que já tínhamos nos divertido báááááarbaramente para aquele sábado e que era hora de ir embora.

O mais importante de tudo era ter cumprido a missão com sucesso, e isso creio que cumprimos. Não falamos dos nossos amores mal sucedidos nem das mazelas do trabalho. Tínhamos outro foco, afinal. E até que foi bacana de ver os Tios Sukitas e as cinquentonas desesperadas se divertindo pra valer. Acho que isso nos serviu de consolo no final das contas, porque, como negar?, eles somos nós amanhã.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Pegando o ónibus...no Rio.

Segunda-feira, Centro lotado do Rio. O quanto o sol dos primeiros dias de verão nós esmaga contra o asfalto, um ónibus marca aproximadamente a parada para pegar seus passageiros. A destinação, inscrita em letras amarelas no para-brisa, Mandala, indica o percurso : sair logo do Centro, e seguir pelas praias, uma depois da outra - Botafogo, Copacabana, Ipanema, Leblon, até o outro lado da cidade. Além de oferecer um visual de cinema, essa linha apresenta o vantagem de cruzar a metrópole rapidamente com o ronrom do ar condicionado puxado ao máximo.
Estamos a bordo. Uns vinte passageiros, a trocadora, o motorista e nossa confiança no transporte público.
Primeira etapa, sem erro. Botafogo desfila à toda velocidade. Atrás dos vidros, o Corcovado transpira e o Pão de Açucar cozinha em lume brando. No alto da sua cadeira, os pés contra o torniquete, a dona trocadora dormita. As filas estão calmas, não tem de que se preocupar mesmo. O ónibus segue seu rumo.
Saímos de Botafogo, estamos à alguns metros da avenida Atlântica, que ladeá o mítico mar de Copacabana. A banda de areia branca se alinha em perpendicular na nossa frente. Mas de repente, o ónibus bifurca. Curva para a direita, e lá estamos nós, no meio do zumzum das ruazinhas do bairro, há mais de 100 metros dos coqueiros famosos. Os passageiros acordam divagar da sua moleza... mas a onde vamos ? A interrogação muda se torna rapidamente num resmungo de protestação :
"Trocadora !!! Mas não é o caminho ! O que que está acontecendo ?"
Sem pressa, erguendo a cabeça na direcção dos furiosos, ela levanta os ombros : "Eu tomo conta dos passagens, o caminho vêem com ele", se defende, apontando do queixo para o motorista impassível atrás do seus óculos escuros.
As vozes interpelam o acusado : "Mas, a onde você está indo ? A gente não deve seguir a praia ?"
As ruas passam, uma depois da outra, o ónibus continua longe das ondas e das cangas. Os motins viram mais barulhentos, accionam o sinal, gritam, batem nos vidros... "Oh! Motorista! Oh! Oh!'
O condutor teimoso cede enfim, divagar o veículo vira para a esquerda e a praia reaparece em nossa frente. No meio dos suspíros aliviados, a voz grave do capitão do volante ressoa solitária como uma reprimenda : "Era mais rapido par là".
No transporte do Rio não hà linha de ônibus, só hà curvas abertas às vontades e desejos do motorista...
Em um instante, as banhistas de bikini rebolam de novo no nosso lado, e a vidinha à 50 quilómetros por hora volta na normal. Os revoltados se retornam passageiros anónimos, dona Controladora continue seu cochilo e só Yemanja sabe o que o motorista está resmungando atrás dos seus vidros de fumaça. Laiá !

sábado, 25 de julho de 2009


Bom, eu não sei se vocês vão concordar comigo, mas adoro essa foto. Ela é de minha autoria, by the way. E o que mais gosto nela é porque ela me passa uma sensação de insignificância, da nossa insignificância diante do mundo (Uma insignificância colorida e não tão solitária, confesso, mas não por isso menos insignificante, né?)

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Implicâncias
por Quel Sarinho

Pois é. Todo mundo tem as suas implicâncias. Tem gente que implica com pessoas que falam alto, que usam peruca, que não dão bom dia no elevador, ou ainda que oferecem aquela mão molinha na hora de cumprimentar, ou que cutucam para falar.

E penso que as implicâncias têm lá suas graduações. Umas irritam mais do que outras. Algumas acontecem assim, quase por acaso, vêm e vão como um espirro, tipo quando pessoas bochecham o vinho na minha frente antes de tomá-lo. Outras simplesmente vêm, e ficam para sempre. Por exemplo: como não implicar com mulheres beges que fazem biquinho para falar e miam feito gato?

Pensando sobre minha infindável e sempre crescente lista de implicâncias, resolvi eleger as minhas preferidas – pois é, confesso, que criei uma certa afeição por elas – que resultaram numa top five list.

A número um, sem dúvida alguma, seria a das pessoas que mastigam chiclete de boca aberta. E se a pessoa for mulher, então, meu deus! chego a salivar de raiva. E isso é sério. Só não me pergunte porque. Nasci assim. O mais incrível é que as pessoas que mastigam chiclete de boca aberta acabam gerando em mim uma certa desconfiança. Já reparei: nenhum dos meus amigos mastiga chiclete de boca aberta, o que me leva a crer que meus instintos estão certos.

Implicância número dois. A forma retardada com que as pessoas se tratam em e-mails, orkut e afins. É o surgimento de uma comunicação for dummies, acho. Fenômeno típico da internet e do mundo virtual, apesar de que, já andei reparando, as pessoas estão regredindo cada vez mais na vida real também.

Realmente eu implico, e muito, com quem já tendo terminado a faculdade manda beijoosssssssssssssssssss, ri Huahuahuahua, tem muitas amigaaaaaaassssss que se adorooooooooram muuuuuuuuitoooooooo e que vão a eventos suuuuuuuuper legaaaaaaaaaaais no final de semana. Je-sus. Se o teclado está com defeito e as teclas ficam prendendo toda hora, é baratinho comprar outro. Asseguro. Ou se o problema não é no teclado, talvez seja na placa mãe mesmo, o que pode ser resolvido com algumas sessões de psicanálise.

Bululucagens públicas. Essa é a minha implicância número três. Abro um parêntesis aqui para explicar o que significa “bululucagem”. Sabe aquele apelido meio carinhoso meio retardado que os casais se dão entre quatro paredes ou aquela vozinha de criança que a mulher faz para o “seu homem” para pedir alguma coisa ou a imitação de cachorrinho que o homem faz para a “sua mulher” quando ela o elogia? Então, tudo isso é bululucagem.

Outro dia viajei com um casal amigo. Ela o chamava de honey e ele a chamava de sweetie. Num primeiro momento, fiquei enternecida com os apelidos carinhosos, mas logo as palavras honey e sweetie passaram a dominar os diálogos, e a se reproduzirem como periquitos australianos. A cada dialogo entre os dois com vinte palavras dez eram honey e quinze sweetie. O melhor era ver discussões entre honey e sweetie. Porque até nesse momento eles não deixavam de se chamar honey e sweetie. Insuportável.

Implicância número quatro. Expressões do tipo “lugar com gente bonita” e “um lugar para ver-e-ser-visto”.

Lugar com gente bonita? Vamos combinar, estamos falando de lugar com gente rica. Não existe gente feia, existe gente sem dinheiro. Fato. E lugar para ver-e-ser-visto é um conceito que eu não entendo. As pessoas realmente querem ir para um lugar onde um fica prestando atenção no outro o tempo todo? Tipo, não dá nem para comer aquele sanduba de filé com abacaxi e queijo onde cada mordida é uma briga entre os seus dentes e a carne e o queijo, a carne querendo sair inteira, seus dentes não conseguindo cortá-la e o queijo estabelecendo uma passarela entre o sanduba na sua mão e a sua boca? Mundo maluco esse minha gente.

E a última implicância da lista, mas não menos importante, é a minha implicância com pessoas-burras-que-se-acham-inteligentes. Nada contra pessoas burras. Nada contra pessoas que se acham inteligentes. Mas pessoas-burras-que-se-acham-inteligentes não dá! Principalmente porque essas pessoas repetem a mesma explicação para você muitas e muitas vezes, e de uma forma muito detalhada. E eu já entendi porque as pessoas-burras-que-se-acham-inteligentes se comportam assim. Porque elas pensam que se não fizerem dessa forma, você, assim como elas, também não vai entender absolutamente nada.

Poderia passar horas e horas escrevendo sobre todas as minhas implicâncias. O que, pensando bem, seria bastante irritante. Como também implico com textos longos, e com pessoas que não sabem a hora de parar, termino por aqui.