quinta-feira, 30 de julho de 2009

Pegando o ónibus...no Rio.

Segunda-feira, Centro lotado do Rio. O quanto o sol dos primeiros dias de verão nós esmaga contra o asfalto, um ónibus marca aproximadamente a parada para pegar seus passageiros. A destinação, inscrita em letras amarelas no para-brisa, Mandala, indica o percurso : sair logo do Centro, e seguir pelas praias, uma depois da outra - Botafogo, Copacabana, Ipanema, Leblon, até o outro lado da cidade. Além de oferecer um visual de cinema, essa linha apresenta o vantagem de cruzar a metrópole rapidamente com o ronrom do ar condicionado puxado ao máximo.
Estamos a bordo. Uns vinte passageiros, a trocadora, o motorista e nossa confiança no transporte público.
Primeira etapa, sem erro. Botafogo desfila à toda velocidade. Atrás dos vidros, o Corcovado transpira e o Pão de Açucar cozinha em lume brando. No alto da sua cadeira, os pés contra o torniquete, a dona trocadora dormita. As filas estão calmas, não tem de que se preocupar mesmo. O ónibus segue seu rumo.
Saímos de Botafogo, estamos à alguns metros da avenida Atlântica, que ladeá o mítico mar de Copacabana. A banda de areia branca se alinha em perpendicular na nossa frente. Mas de repente, o ónibus bifurca. Curva para a direita, e lá estamos nós, no meio do zumzum das ruazinhas do bairro, há mais de 100 metros dos coqueiros famosos. Os passageiros acordam divagar da sua moleza... mas a onde vamos ? A interrogação muda se torna rapidamente num resmungo de protestação :
"Trocadora !!! Mas não é o caminho ! O que que está acontecendo ?"
Sem pressa, erguendo a cabeça na direcção dos furiosos, ela levanta os ombros : "Eu tomo conta dos passagens, o caminho vêem com ele", se defende, apontando do queixo para o motorista impassível atrás do seus óculos escuros.
As vozes interpelam o acusado : "Mas, a onde você está indo ? A gente não deve seguir a praia ?"
As ruas passam, uma depois da outra, o ónibus continua longe das ondas e das cangas. Os motins viram mais barulhentos, accionam o sinal, gritam, batem nos vidros... "Oh! Motorista! Oh! Oh!'
O condutor teimoso cede enfim, divagar o veículo vira para a esquerda e a praia reaparece em nossa frente. No meio dos suspíros aliviados, a voz grave do capitão do volante ressoa solitária como uma reprimenda : "Era mais rapido par là".
No transporte do Rio não hà linha de ônibus, só hà curvas abertas às vontades e desejos do motorista...
Em um instante, as banhistas de bikini rebolam de novo no nosso lado, e a vidinha à 50 quilómetros por hora volta na normal. Os revoltados se retornam passageiros anónimos, dona Controladora continue seu cochilo e só Yemanja sabe o que o motorista está resmungando atrás dos seus vidros de fumaça. Laiá !

sábado, 25 de julho de 2009


Bom, eu não sei se vocês vão concordar comigo, mas adoro essa foto. Ela é de minha autoria, by the way. E o que mais gosto nela é porque ela me passa uma sensação de insignificância, da nossa insignificância diante do mundo (Uma insignificância colorida e não tão solitária, confesso, mas não por isso menos insignificante, né?)

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Implicâncias
por Quel Sarinho

Pois é. Todo mundo tem as suas implicâncias. Tem gente que implica com pessoas que falam alto, que usam peruca, que não dão bom dia no elevador, ou ainda que oferecem aquela mão molinha na hora de cumprimentar, ou que cutucam para falar.

E penso que as implicâncias têm lá suas graduações. Umas irritam mais do que outras. Algumas acontecem assim, quase por acaso, vêm e vão como um espirro, tipo quando pessoas bochecham o vinho na minha frente antes de tomá-lo. Outras simplesmente vêm, e ficam para sempre. Por exemplo: como não implicar com mulheres beges que fazem biquinho para falar e miam feito gato?

Pensando sobre minha infindável e sempre crescente lista de implicâncias, resolvi eleger as minhas preferidas – pois é, confesso, que criei uma certa afeição por elas – que resultaram numa top five list.

A número um, sem dúvida alguma, seria a das pessoas que mastigam chiclete de boca aberta. E se a pessoa for mulher, então, meu deus! chego a salivar de raiva. E isso é sério. Só não me pergunte porque. Nasci assim. O mais incrível é que as pessoas que mastigam chiclete de boca aberta acabam gerando em mim uma certa desconfiança. Já reparei: nenhum dos meus amigos mastiga chiclete de boca aberta, o que me leva a crer que meus instintos estão certos.

Implicância número dois. A forma retardada com que as pessoas se tratam em e-mails, orkut e afins. É o surgimento de uma comunicação for dummies, acho. Fenômeno típico da internet e do mundo virtual, apesar de que, já andei reparando, as pessoas estão regredindo cada vez mais na vida real também.

Realmente eu implico, e muito, com quem já tendo terminado a faculdade manda beijoosssssssssssssssssss, ri Huahuahuahua, tem muitas amigaaaaaaassssss que se adorooooooooram muuuuuuuuitoooooooo e que vão a eventos suuuuuuuuper legaaaaaaaaaaais no final de semana. Je-sus. Se o teclado está com defeito e as teclas ficam prendendo toda hora, é baratinho comprar outro. Asseguro. Ou se o problema não é no teclado, talvez seja na placa mãe mesmo, o que pode ser resolvido com algumas sessões de psicanálise.

Bululucagens públicas. Essa é a minha implicância número três. Abro um parêntesis aqui para explicar o que significa “bululucagem”. Sabe aquele apelido meio carinhoso meio retardado que os casais se dão entre quatro paredes ou aquela vozinha de criança que a mulher faz para o “seu homem” para pedir alguma coisa ou a imitação de cachorrinho que o homem faz para a “sua mulher” quando ela o elogia? Então, tudo isso é bululucagem.

Outro dia viajei com um casal amigo. Ela o chamava de honey e ele a chamava de sweetie. Num primeiro momento, fiquei enternecida com os apelidos carinhosos, mas logo as palavras honey e sweetie passaram a dominar os diálogos, e a se reproduzirem como periquitos australianos. A cada dialogo entre os dois com vinte palavras dez eram honey e quinze sweetie. O melhor era ver discussões entre honey e sweetie. Porque até nesse momento eles não deixavam de se chamar honey e sweetie. Insuportável.

Implicância número quatro. Expressões do tipo “lugar com gente bonita” e “um lugar para ver-e-ser-visto”.

Lugar com gente bonita? Vamos combinar, estamos falando de lugar com gente rica. Não existe gente feia, existe gente sem dinheiro. Fato. E lugar para ver-e-ser-visto é um conceito que eu não entendo. As pessoas realmente querem ir para um lugar onde um fica prestando atenção no outro o tempo todo? Tipo, não dá nem para comer aquele sanduba de filé com abacaxi e queijo onde cada mordida é uma briga entre os seus dentes e a carne e o queijo, a carne querendo sair inteira, seus dentes não conseguindo cortá-la e o queijo estabelecendo uma passarela entre o sanduba na sua mão e a sua boca? Mundo maluco esse minha gente.

E a última implicância da lista, mas não menos importante, é a minha implicância com pessoas-burras-que-se-acham-inteligentes. Nada contra pessoas burras. Nada contra pessoas que se acham inteligentes. Mas pessoas-burras-que-se-acham-inteligentes não dá! Principalmente porque essas pessoas repetem a mesma explicação para você muitas e muitas vezes, e de uma forma muito detalhada. E eu já entendi porque as pessoas-burras-que-se-acham-inteligentes se comportam assim. Porque elas pensam que se não fizerem dessa forma, você, assim como elas, também não vai entender absolutamente nada.

Poderia passar horas e horas escrevendo sobre todas as minhas implicâncias. O que, pensando bem, seria bastante irritante. Como também implico com textos longos, e com pessoas que não sabem a hora de parar, termino por aqui.