Esse ano decidi que me retiraria do mundo para entrar energizada em 2010. Fui para um retiro espiritual para passar a virada 09-10 meditando, e foi incrível, como eu já sabia que seria.
Conheci muita gente interessante (até o neto bastardo do meu bisavô...), dancei ciranda sob a lua, pratiquei meditação angelical (que de angelical não tem nada já que se assemelha muito a uma rave, sem drogas, naturalmente) fiz mandalas coletivas, limpei alfaces, cortei cenouras, lavei muita louça, limpei o centro comunitário, e cuidei da horta. E foi cuidando da horta que tive inspiração para fazer esse post.
O trabalho do grupo era muito simples: deveríamos tirar as tiriricas que cresciam freneticamente no canteiro das ervas medicinais. Uma pausa aqui do tipo “Você sabia?” para explicar que tiriricas são ervas que matam outras ervas, pois crescem muito rapidamente e acabam sufocando as outras plantas ao redor. Mas não podemos dizer que as tiriricas são de todo mal porque a “batata” da tiririca – que fica no final de sua raiz e é com se fosse o seu coração – é ótima para fazer chá e ser tomado por quem tem cálculo renal.
Nossa função então era retirar as tiriricas com todo cuidado e amor, para não deixar suas batatas na terra, porque assim as tiriricas acabam crescendo mais fortalecidas, e também porque precisávamos das batatas para fazer o chá medicinal.
Falando assim parece fácil, mas não foi nada, nada fácil. Isso porque as tiriricas parecem graminhas simples e singelas e frágeis, mas possuem raízes super fortes e profundas. Na menor distração e cuidado, elas se partem deixando a raiz e as procuradas batatas, na terra. Fora isso, as tiriricas eram muitas; ao ponto de eu achar sinceramente que quem estava fora de lugar na horta eram o alecrim e o manjericão. Mas o foco eram as tiriricas, e lá fui eu tiririca por tiririca, sob um sol escaldante.
Não sei se foi o calor ou o cansaço, mas em um determinado momento vi com muita clareza que nossas almas, assim como aquela horta, também são infestadas de tiriricas. A cada dia deixamos que mais e mais tiriricas cresçam dentro de nós, sufocando sentimentos de amor, de compaixão, de alegria, de generosidade, de serenidade. Quando brigamos com alguém e ficamos magoados e ressentidos: olha aí as tiriricas crescendo. Quando temos raiva e somos cruéis com as pessoas, agindo com agressividade ou dureza: mais tiriricas. Quando damos espaço para que o medo cresça ao invés de dar espaço para o amor: tiririca, tiririca, tiririca. Quando deixamos de olhar para o outro com atenção, quando somos egoístas, possessivos, quando esquecemos de tentar compreender verdadeiramente o próximo.... fato é que de tiririca em tiririca vamos nutrindo dentro de nós um jardim bem grande e repleto delas.
Da mesma forma que não foi nada fácil arrancar as tiriricas com as suas batatas, também não é nada fácil arrancar as tiriricas da alma. Muitas vezes olhamos para as nossas tiriricas internas e pensamos que elas são um nada, um simples matinho inofensivo que por lá cresceu. Mas com o tempo – e com seu cultivo através de nossas ações e pensamentos – elas vão crescendo e crescendo e vão sufocando sentimentos tão lindos e puros, existentes em todos nós.
Saí do meu retiro de ano novo com uma lição: prestar mais atenção às tiriricas da minha’lma. Que bom seria se eu não as plantasse! Mas uma vez lá em crescimento, deverei olhá-las com muito cuidado e atenção -- sem rejeitá-las ou arrancá-las superficialmente -- e retirá-la, uma a uma, de forma inteira.