A cerveja gela no cooler em formato de lata de cerveja, a pastinha de atum com maionese está quase pronta, os ingredientes para o cachorro-quente estão todos separados. Só falta o casal anfitrião se arrumar para esperar os convidados. Camisas da Seleção Brasileira da última Copa a postos, copos separados, uma cerveja aberta enquanto a galera não chega, início de clima de Copa do Mundo.
O narrador mala solta um “bem amigos da Rede Globo” na TV, o jogo começa dois minutos e pouco antes do previsto, chega o primeiro casal de amigos, ele amigo de infância do anfitrião.
- Ué, o jogo já começou?
- Já. Vamos ver, Argentina tocando mais a bola. Depois a gente mostra a casa. Querem cerveja?
- Quero, claro!
- Ôpa, onde é o banheiro? Geralmente é na segunda porta à esquerda – brinca o amigo.
- Não, aqui é na primeira porta à direita – responde o anfitrião.
Toca a campainha, cinco minutos de jogo, chega o outro casal de amigos, ela com a camisa do Brasil, ele, gaiato, com a camisa da Argentina.
- Bámos, bámos, Arrentina, bámos, bámos a ganar!!!
- Tem sempre um gaiato, né? – diz a anfitriã.
O jogo segue, a pastinha em cima da mesa vai sumindo do pote, assim como o queijo e o salame.
- Querem comer já o cachorro-quente? – pergunta a anfitriã – É que ela trabalhou hoje, deve estar com fome – diz ela, para explicar a situação da amiga que trabalhou em pleno sábado.
A cerveja vai saindo feito água, alguns não bebem por recomendações médicas, outros para segurar a onda...
- Ih, é falta. Ah se tivesse o Juan na Seleção. Tá fazendo gols de cabeça direto em cobrança de falta. Só tem o Luisão que ... goooool!!! – grita o anfitrião, para comemorar o gol de cabeça do Luisão.
Barulho na rua, mais cerveja, Maradona com cara de bunda na televisão, mais uma falta pro Brasil.
- Olha lá, vai sair outro gol. Tá com cara de goleada – diz um dos convidados.
Gooooooool. Luís Fabiano. 2 a 0 pro Brasil.
- IIIIIIhhhhh, o Maradona ta ferrado – diz outro convidado – Daqui a pouco o Galvão Bueno vai mandar o “toca me bôi”. Inventou e fica nessa de “toca me bôi”.
Risos, intervalo, a casa é mostrada para os amigos, o Hino Nacional é destruído pela Vanusa no Youtube, cachorro-quente para todo mundo, começa o segundo tempo, bola pra cá, bola pra lá...
- Ih, o Brasil vai golear, tá com cara de goleada – diz o convidado com a camisa da Argentina, já totalmente a favor do Brasil.
De repente...
- Gol!!!!
Uma voz única, gol da Argentina. O grito não foi do convidado com a camisa da Argentina, mas da sua mulher, que, na verdade, mesmo vestida com a camisa do Brasil com o número 7 às costas e o nome do Adriano, quer é ver gol.
Já surge na TV o narrador chato dizendo “um Brasil e Argentina é seeeempre um Brasil e Argentina”. Para, logo depois, escorregar no português, soltar um “Luís Fabiano, olha a deslocação” e encher o peito para dizer “olha o toque por coberturaaaa... gooooooooollllll... ééééééé do Brasiiiiiiilllll”.
- Vai tomar no cu, Argentina! Vai se foder Maradona! – brava o anfitrião, para logo depois imitar o narrador chato – Haaaaaja coração, amigo!
3 a 1 no placar, toque de bola, mais cerveja, a noite passa, o jogo acaba, os convidados começam a ir embora, um tem de ir para uma quadra de samba, surge um sorvete de chocolate com amêndoas, o outro convidado pede um balde para batucar enquanto o anfitrião, meio bêbado, repete uma música só no cavaquinho.
- Ai meu Deus, os vizinhos vão adorar – diz a anfitriã, com a música ao fundo: “mas a faculdade é particular. Particular, ela é particular...”.
Acaba a música, recomendação para o último casal mandar um torpedo avisando que chegou são em casa, “porque nunca se sabe, né?”, o anfitrião deglute o que resta de salsicha, a sala tem as cadeiras desarrumadas e alguns poucos copos espalhados. Chega o torpedo, o anfitrião já dorme, a anfitriã pensa em como responder parecendo o marido. Até porque, é tudo particular...