quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Mais da "Vida como ela é para Crianças"

VI. Justiça

(Para minha querida amiga Quel,
que ainda acredita que "quem com ferro fere...". Vocês sabem.)
Era uma vez Helena, uma menina de espírito filosófico que foi buscar na natureza a resposta para uma de suas questões metafísicas: seria o mundo naturalmente injusto?

Seguem algumas anotações de seu caderno de campo:
Inverno de 2009.

Um peixe nadava alegremente, sem fazer mal a ninguém, quando veio do céu, inesperadamente, uma linda gaivota e lhe devorou.

Por que, meu Deus, por que? Existiria uma guerra natural entre céu e mar?

Outro peixe foi buscar abrigo em uma toquinha (acredito que para se recuperar da dramática cena anterior), quando foi friamente devorado PELA PRÓPRIA TOCA!

Como assim, meu Deus, como assim?

Uma reflexão: a aparentemente pacata vida marinha é, na verdade, uma enorme batalha, na qual a criativa solução do polvo de se defender soltando tinta mais parece brincadeira de criança.

Conclusão de hoje: não há paz e nem justiça no mar.
Não houve novas anotações esse dia. É que Helena, partindo de sua conclusão sobre o mar, pensou também nas zebrinhas listradas sendo devoradas por oncinhas pintadas e... Não! Recusava-se pensar na frenética vida dos coelhinhos peludos. Era demais!

Recorreu, então, ao seu sábio e fiel amigo Darwin. Ele, como sempre, veio com excelentes argumentos:
- Helena, procure compreender, estavam todos com fome.
- Pelo amor de Deus, Darwin! Você já ouviu falar em maça?
- Bem, a opção de um mundo vegetariano não me parece exatamente justo com as plantas.
- Oh céus, pobres plantas... Não adianta, Darwin: eu não vou me adaptar!

Mesmo sem saber, Darwin retomara sua questão original: justiça. Helena até concordava com o atenuante da fome, mas o que dizer dos dilúvios, terremotos e vulcões? Ela estava mais do que convencida de que o mundo, embora belo, era naturalmente injusto e o melhor a fazer era aceitar isso. Retomou, assim, suas anotações de campo:
Ainda inverno de 2009.

O mundo, embora muito belo, é naturalmente injusto.

Outra reflexão: sendo assim, de onde vem o nada sábio desejo de justiça?

A reflexão foi interrompida por um grito gutural. É que Tomás, seu irmão mais novo, chegara ao jardim trazendo uma única e deliciosa barra de chocolate. O surpreendente é que o grito vinha da própria Helena, que sentenciava:

- Tomás, se você divide, eu escolho!

Um comentário:

Quel Sarinho disse...

Fau, quanta complexidade num post.... =) Terei que pensar muito sobre ele.
E quanto ao meu ferro, fico na filosofia budista ou cabalística, sei lá, que o que fazemos contra o outro volta para nós mesmos. Já me explicaram que no passado, o que vc fazia de ruim numa encarnação, voltava na outra, mas como o mundo está acelerado, a coisa ruim está voltando na MESMA encarnação. Uuuuhhhhhh bizarro, não?
Mas vamos continuar dividindo as barrinhas por igual. Sem dúvida é melhor viver assim.