segunda-feira, 31 de agosto de 2009

...e assim disse Liz...

Liz, pra quem não sabe é minha sobrinha.

Assim como qualquer outra criança de 4 anos, ela às vezes nos surpreende....

Essa surgiu num simples diálogo com o avô dela:

- Vovô Júlio, quem é seu irmão?
- Meu irmã0 se chamava Luiz, mas ele já virou estrelinha e foi pro céu...
- Ele morreu de gripe suína?
-....

e agora????

domingo, 30 de agosto de 2009

A Ditadura Debochada

Sérgio e Lucia arrumavam as coisas na casa nova, quando ela abriu a caixa com os livros dele.

Tinham decidido morar juntos há um mês, e tudo ainda era novidade. Lucia maravilhava-se com cada coisa que faziam e, à medida que ela ia tirando os livros dele da caixa, sua teoria de que se casara com um homem inteligente, sensível, culto e politizado apenas se confirmava. Ele tinha todos os livros do Chico, incluindo os songbooks. Claro, porque além de tudo, Sérgio ainda tocava violão. Vários livros sobre futebol, sua grande paixão, mas todos com um quê cult, tipo “Nietzsche desvenda o mito em Pelé”. Pousou os olhos sobre os livros do Eduardo Galeano, de quem não ouvia falar desde que lera, ainda adolescente, “As Veias Abertas da América Latina” – quando começou a entender que o mundo não era cor-de-rosa – até que sua atenção foi chamada para a antologia sobre a ditadura militar, do Elio Gaspari.

− Os livros da ditadura! – exclamou, já se envergonhando por seu entusiasmo quase infantil diante de uma coisa tão séria – Sempre quis ler, mas... – calou-se, pensando na lista de cerca de 150 livros que sempre quisera ler, mas...

− É, acho que são quatro ou cinco, mas não sei onde estão os outros – disse Sérgio, enquanto tentava achar o livro grande sobre o Maracanã.

− Não, acho que são só três mesmo. O último é “A Ditadura Derrotada” – disse ela.

Aí, Lucia pensou na democracia e veio à sua mente um turbilhão de nomes, imagens e acontecimentos – Sarney, Collor, FHC, Lula e, finalmente, Sarney, de novo... O Tancredo morto; Coração de Estudante; as pessoas se abrigando da chuva sob o bandeirão em Brasília; o Sarney e o bigode mexicano; o Cruzado; a Maria da Conceição Tavares chorando por causa do Cruzado (!?!?); o Funaro tentando explicar a demanda e a oferta, parecendo o romano do “Obelix e Cia”; a tablita; a Sunab, e os fiscais; a Jandira Feghali antes do creme sem enxágue gritando “Delegada neles”; as donas de casa “fechando esse estabelecimento em nome do meu presidente”; o confisco; a Zélia; a Zélia namorando o Bernardo Cabral; a Zélia casando com o Chico Anísio (!!!); o Magri; o PC Farias; o PC Farias morto num crime passional (ah, tá...); os cara-pintadas por causa da série da Globo; o impeachment; o topete do Itamar; o Itamar no camarote dos bicheiros com a Lilian Ramos sem calcinha e o Maurício Correia; o Maurício Correia Ministro da Justiça; o Maurício Correia Ministro do STF; os anões do orçamento; o ACM presidente do Senado; os sobretudos do Fernando Henrique; o Fernando Henrique e a intelectualidade; o Fernando Henrique e a Sorbonne; o Fernando Henrique quase triste por não ter nascido francês; a Vale e a CSN vendidas sem que ninguém tenha entendido direito o porquê; o escândalo da reeleição; o escândalo da venda das teles e o presidente não sabendo de nada; o escândalo do mensalão; o Zé Dirceu; o Palocci e o caseiro; o Delúbio Soares; os dólares na cueca; o Jacinto Lamas; (nome que, no fim das contas, resume o que o PT se tornou); e o presidente não sabendo de nada; e agora tudo culminado drasticamente no Sarney de novo, o homem que foi o símbolo da Nova República, mas que vinha de uma República mais velha do que a sua avó.

De repente, Lucia parou. Não tinha certeza de quanto tempo havia durado o transe.

− Bem, não sei se são três livros mesmo – disse, afinal – Mas com certeza faltou um. “A Ditadura Debochada”.

− Debochada? − perguntou Sérgio.

− É. Dessa merda de democracia que veio depois.

*Marie é obviamente democrata e admira todo mundo que lutou contra a ditadura. Mas ficaria muito puta se tivesse pegado em armas pelo direito do Sarney de governar o Senado.

* Lucia se confundiu. Há um quarto livro - "A Ditadura Encurralada".

sábado, 29 de agosto de 2009

Mais louco é quem ... não é feliz

Um dia, e isso já faz muito tempo, estava eu dentro de um ônibus na rua Conde de Bonfim. Era um daqueles dias de calor profundo em que o ar pesa mais e todas as coisas parecem se mover em câmera lenta. Encostei a cabeça na janela e lembro de ter visto, do lado de for a, uma mendiga em cima da ilha de concreto, entre as duas pistas da Conde de Bonfim.

E assim, de repente, não mais que de repente, sem qualquer tipo de aviso prévio, aquela mulher negra, toda esfarrapada, começou a dançar.

Eram piruetas e rodopios, ora ela levantava uma perna ora outra, os pés, seus braços todos em graciosos movimentos no ar como os movimentos de uma bailarina. Mais alguns instantes e entramos num delicado minueto. Quem seria o seu par? Qual seria a música que estava tocando?... Aquela criatura dominava com desenvoltura seu estreito pedaço de concreto, como se estivesse nos populosos salões de Versalles em dia de baile (e quem disse que ela não estava?).

Olhei para os passageiros dentro do ônibus, para os carros na rua e para as pessoas que passavam apressadas. O mundo girava alheio àquela mulher, agora já vestida em toda a sua majestade. Olhei para mim e senti, por um momento, inveja daquela criatura. Aos meus olhos, ela brilhava. Como seria bom se pudéssemos não perceber, mesmo que por algumas horas somente, o mundo real, o mundo da razão. Como seria bom poder agir livremente, seguindo unicamente aos comandos da sua própria voz. Como seria libertador poder não dar ouvidos o tempo todo ao senso comum, ao mundo do lado-de-fora, onde as pessoas só dançam com músicas de verdade e nunca, nunca no meio da rua, no meio do dia, no meio do caos.

Eu juro que é melhor não ser o normal. Se eu posso pensar que Deus sou eu ... por que não?

Coluna dos Consumidores Satisfeitos II



Aconteceu de Novo...

Tocou a campainha e lá estava ele, um entregador que tinha medo de cachorro. Até aí tudo indicava que seria mais uma entrega ordinária.

Mas aquela era uma farmácia diferente, primeiro porque eu estava na casa de meus pais; mas, principalmente, porque lá trabalhava o entregador que tinha medo de cachorro. Ao fazer o pedido por telefone, informei categoricamente que pagaria em cheque. Acontece, porém, que eu havia esquecido o talão.

Sem opção melhor, fiz uma conta por alto, peguei todo o dinheiro que tinha na carteira e atendi a porta confiante de que tudo daria certo. Driblei os dois cachorros de meus pais e abri o portão ansiosa para perguntar: “moço, quanto deu mesmo?”.

Para a minha surpresa, tive antes que encontrar o acuado entregador. Aquela imagem me quebrou e optei por um preâmbulo:

- Medo de cachorro, é?

Ele então me olhou com muita sabedoria e respondeu:

-Melhor não arriscar. A gente nunca sabe.

Só me restava concordar e ir direto ao ponto:

- É... Moço, quanto deu mesmo?

Veio a resposta e eu percebi que faltavam cinqüenta míseros centavos, além da habitual gorjeta. Por puro reflexo, tentei a sorte:

- Moço, posso ficar te devendo cinqüenta centavos?

Ele ponderou e respondeu com muita firmeza, já saindo:

- Fique tranqüila, eu intero do meu bolso.

Eu, em estado de choque, só consegui falar:

- Não, por favor, espere um minuto.

Entrei novamente na casa dos meus pais, tomando cuidado para os cachorros não fugirem, claro, e comecei a procurar. Havia de ter uma moeda em algum lugar. Encontrei, porém, o meu cunhado, que solidário com a minha busca e emocionado com a história do raro entregador me deu dez vezes mais do que o valor procurado!

Corri ao encontro do entregador, que ao ver a nota que eu trazia disse:

- Que isso, moça? Não precisava. É muita gentileza.

Respondi sem pestanejar:

- Nem vem. Foi você quem começou.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Homenagem à nossa primeira seguidora: Bianca Nascimento

"Nature Boy
(Eden Ahbez)

There was a boy
A very strange, enchanted boy
They say he wandered very far
Very far, over land and sea
A little shy and sad of eye
But very wise was he

And then one day,
One magic day he passed my way
While we spoke of many things
Fools and Kings
This he said to me

The greatest thing you'll ever learn
Is just to love and be loved in return."


P.S: Eu totalmente apoio o movimento pelos bons exemplos. Só não me ocorreu nenhum até esse momento, mas tenho certeza de que eles existem. Só preciso ver mais a Oprah.

MVP

... Depois do post da Fafau abaixo, proponho um movimento virtual, uma mobilizaçao, o MVP: Movimento Viva o Paulo.

Vamos mandar emails para a loja procurando o Paulo, difundir a história, utilizar a figura do Paulo como exemplo. Espalhem essa história, espalhem o movimento. Outros Blogs, twitter, comunidades no orkut, facebook. Façamos desse raro testemunho um grito de guerra a favor do bom atendimento.

É sério.... quem está dentro????

terça-feira, 25 de agosto de 2009

COLUNA DOS CONSUMIDORES SATISFEITOS

VAMOS DEIXAR O PESSIMISMO PARA DIAS MELHORES!

Nada mais chato do que ouvir os relatos de pessoas revoltadas com prestadores de serviços como TV por assinatura, operadoras de celulares, cartões de crédito etc. Recentemente eu tive uma experiência bizarra com uma atendente da Sky, que não se conformou do meu CPF ter uma seqüência de “35” e desistiu do atendimento alegando: ”faltam dois números, senhora, o que, infelizmente, inviabiliza a continuação do atendimento. Mas a Sky agradece...”. Foi desagradável, claro, mas gerou em mim um sentimento até então inimaginável: saudades da Net!

Mas a intenção aqui não é compartilhar essas histórias. Pois, por mais carregadas de finíssimo humor que algumas sejam, são histórias chatas pela freqüência com que ocorrem em nossas vidas. Então, numa época em que a regra do bom atendimento virou exceção, só nos resta mudar o rumo de nossas prosas e acreditar que tempos melhores virão!

Sendo assim, proponho aqui uma coluna dedicada a relatos dos raros e emocionantes casos de bom atendimento. Por incrível que pareça, tenho uma experiência recentíssima para compartilhar:

Paulo, o Profissional Responsável

Não chovia muito, mas era domingo a noite e a loja, localizada na longínqua e populosa Barra da Tijuca, transbordava de gente disposta a matar ou morrer por um jogo americano. Estávamos eu, o senhor meu marido e nosso rebento de um ano e três meses, que gritava muito.

Escolhemos nossos parcos itens e encaramos a batalha maior: a fila para pagar. Considerando as condições, saímos vitoriosos – ou seja, sem brigar! Chegando em casa, porém, em vez do sono dos justos, a surpresa maior: uma cortininha, que curiosamente havia motivado a nossa ida a guerra, tinha sido esquecida na loja, provavelmente em função de algum rompante do pequeno Gabriel.

Vejam bem, não estamos tratando de uma cortina de seda pura ou algo de mais valia. Era uma barata esteirinha enrolada, mas que, devido ao sofrimento envolvido em sua aquisição, tinha para nós um valor emocional inestimável.

De nada adiantaram as tentativas de consolo de meu marido. Eu estava devastada. Ele, que não é religioso, desesperado, ligou para a loja, às 21h30 da noite a espera de um milagre. Os fatos que se seguiram são extraordinários, porém reais, e serão narrados na seqüência em que ocorreram:
  1. O telefone da loja foi atendido;
  2. A pessoa que atendeu era muito educada e se dispôs a passar a ligação imediatamente para o profissional responsável. “Profissional responsável?!?!”, bufafa eu ao lado do telefone enquanto o meu marido tentava estabelecer um diálogo com o seu interlocutor (eu sei que isso é insuportável. Eu sei, eu sei...).
  3. Na seqüência veio Paulo (infelizmente não sabemos o sobrenome desse grande homem). Ele se apresentou, explicou brevemente a complexidade da situação - faltavam 30 minutos para a loja fechar, eles estavam em guerra etc etc. Depois de colocados os riscos envolvidos, pegou todos os dados da nossa cortininha perdida (inclusive seu baixo preço!) e apresentou o plano de ação: aguardaria mais um pouco por alguma ocorrência nos achados e perdidos (“Rá”, bufafa eu...); e, se não aparecesse, PASMEM, pediria uma contagem do item no estoque após o fechamento da loja para identificar uma possível devolução da mercadoria. De qualquer forma, nos daria um retorno o mais breve possível... (nesse momento, eu lançava pérolas como “e o coelhinho da páscoa etc”. Eu sei, gente. Eu sei...);
  4. Sem mais opções, resolvemos beber e praticar o desapego, afinal era só cortininha...
  5. Às 22 horas toca o celular. Paulo, é claro, já não existia mais em nossas mentes. É que, certos de que ele havia desligado o telefone, rido à beça de nossa ingenuidade e falado coisas como “sabe o que esse casal da cortininha tem mais do que eu???” tratamos de eliminá-lo de nossas vidas rapidamente. O número que aparecia no celular era confidencial, o que nos fez relutar em atender, mas poderia ser alguém precisando de alguma coisa etc etc.
  6. Para nossa completa perplexidade: era Paulo! Ele, o “profissional responsável” (com todos os trocadilhos, por favor), não havia descansado até encontrar a nossa humilde esteirinha enrolada. Paulo se desculpou pela hora do telefonema (!), mas não aguentaria esperar o dia seguinte para nos dar a boa notícia (juro que tive vontade de chorar nesse momento).

No dia seguinte, gastamos mais em gasolina do que o valor da cortina para buscá-la. Mas já não tinha mais preço. Fomos movidos pela esperança de avistar, mesmo que de longe, esse raro ser humano: Paulo!

Nota do autor: esse é um elogio explícito a pessoa de Paulo, o profissional responsável. Não deve, em nenhuma hipótese, se estendido à loja em questão. Não tenho nada contra a tal loja, mas é que não acredito mais em pessoas jurídicas. Elas são muito estranhas.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

da minha parte...03

outro videozinho pra quem curte musica....

da minha parte...02

talking about expectations...



terça-feira, 18 de agosto de 2009

Tudo pelo social...

Vejam bem como são as coisas nesse Brasilzão. Estava eu aqui assistindo ao Prêmio Multi Show. Aí, de repente, o riff de "Inútil", do Ultraje a Rigor. No palco, Fresno, NX Zero e Strike, bandas tão assim... é... hummm... jovens, vibrantes (cara, que dificuldade para achar essas bandas boas...). E rola a música que eu ouvia na infância e achava legal: a gente não sabemos escolher presidente...

E os caras pulavam de tudo quanto é jeito, o buraco na orelha do vocalista, por causa do piercing, deixava ver o baterista no fundo do palco, o guitarrista mais parecia um contorcionista, uma loucura a apresentação.

Aí, de repente, um camarada de boné solta um "aí galera, vamô mandar uma vaia bem alta pro Sarney". Putz, a que ponto chegamos: o Sarney ser sacaneado por uma banda teen.

E pensar que o bigode do Sarney já foi chamado de "pêlo social" e que o Didi Mocó parodiava o então presidente com "meu povo e minha pova".

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Me contaram...

Ninguém entrava no quarto de música dele. Era praticamente um santuário. Tinha vinil, fita, 78 rotações, md, cd, dvd, tudo. Era um colecionador. Pagava o que fosse, trabalhava pra isso. Ia até o fim do mundo. Até um pouquinho depois do fim do mundo, atrás de um single perdido nos confins da Nepal. Ele chegou a ir até lá mesmo, atrás de um disco raro de Led Zeppellin. Só os clássicos, só colecionava os clássicos. Os amigos tinham inveja, curiosidade. Tinha mais moral no grupo aquele que chegasse mais perto do quarto do Cabelo. Não, ninguém nunca tinha entrado lá. Isso era praticamente impossível. Um dia tentaram convencer a Isabel de seduzir o cabelo e pedir a ele pra transarem no quarto de música, tipo uma tara. Ela até pensou no assunto, tentou dar em cima do Cabelo, mas ele era irredutível, ninguém entrava. Nem a mãe dele, Dona Carmen, entrava. Nem pra limpar! Ele mesmo limpava o quarto. Tinha luz especial, aroma, tratamento acústico. Ele passava horas, às vezes dias, sem sair de lá. Tinha daquelas janelinhas por onde Dona Carmen passava a comida pra ele. De repente ele saia com a cara mais tranqüila do mundo, em estado de graça. “Só os clássicos, só ouço os clássicos...” dizia ele. Um dia o encontraram morto, enforcado num rolo de fita cassete com um bilhete ao lado. Tinha ouvido falar de uma gravação de Zeca Pagodinho cantando Nirvana. Fita única. Enforcou-se quando soube que a fita havia se perdido num incêndio no apartamento do dono. Preferia morrer a não ter a fita do Zeca cantando Kurt. Dizia o bilhete: “Porque fiz isso? Pô, o Zeca é um clássico!”

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

As cores bonitas....

Quel, concordo com tudo que você colocou no post aí embaixo... mas dá uma pequenina aflição só de pensar que amor é "só" isso, essas reações químicas desnecessárias.
Por isso, segue um breve poeminha pra devolver o brilho ao seu coração desmantelado...rs

É urgente o amor
(Eugênio de Andrade)

É urgente o amor.

É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.


quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Reflexões da Linha “Por que mosquito tem tanta perna se ele vôa?”

Já faz algum tempo eu me pergunto por que a gente se apaixona por pessoas que nada tem a ver com a gente ou que, tendo a ver, não correspondem à nossa paixão (ou se correspondem, não se consegue ficar junto. Porque isso acontece. O mal de crescer e se tornar adulto é perceber que apenas o amor não sustenta uma relação, mas isso seria assunto para um outro post).

Vocês não acham que é muito sentimento desperdiçado? Eu acho, sinceramente. É uma energia tremenda que se gasta quando se está apaixonado. E o que se sente é tão profundo e mágico e bom! Queremos amar, queremos abraçar, queremos beijar, queremos o bem do próximo de uma forma tão intensa e bonita que eu realmente não me conformo de ver tudo isso, toda essa energia indo pro saco.

Partindo da premissa de que somos animais e que muito do que fazemos tem um quê de instintivo, fui em busca de tentar entender 1) o que me fazia, qual substância meu corpo produzia que me fazia ficar nesse estado todo de loucura e 2) o porquê de eu me apaixonar por uma determinada pessoa e não por outra.

A primeira resposta foi fácil encontrar (ai, o que seria de nós sem o google?!). Feniletilamina. Aparentemente a culpa é toda desse neurotransmissor que estimula a produção da dopamina, da serotonina e outras substâncias que acabam por nos deixar enlouquecidos. O mais legal é que esse neurotransmissor é ativado por, dizem alguns, feromônios. Alguns pesquisadores afirmam que exalamos continuamente, pelos bilhões de poros na pele e até mesmo pelo hálito, esses produtos químicos voláteis que estão presentes em espécies tão diversas como borboletas, formigas, lobos, elefantes e pequenos símios.

Então, a minha segunda pergunta é respondida pela resposta da primeira. O que acontece na verdade é toda uma comunicação não visível (e química) entre mim e o ser por quem eu me apaixono que vai muito além da psicanálise. Isso não é incrível? Estarei eu, enfim, livre da minha terapia de anos?

Não, não, não... porque apesar da minha segunda pergunta estar, em princípio, respondida, toda essa explicação me provoca algumas outras perguntas: por que então a paixão muitas vezes é unilateral? e qual seria o motivo dessa atração entre seres? A mera reprodução? Se sim, como explicar a paixão entre gays?

Pois é, minha gente, não liguem.... sempre que me apaixono e tenho que reprimir a paixão fico assim, inconformada com o fato de termos que transformar essa força interna tão poderosa em alguma outra coisa que eu nem sei o que é, nem como fazer para ela ir embora mais rapidamente.

Poderíamos, ao menos, materializá-la em coisas.... já pensaram? A paixão não correspondida ou que não deu certo poderia se transformar num passarinho, numa flor, ou num cachorro. E ao materializá-la você tiraria do peito toda aquela tristeza tão doída, sofrida. Seria bom, não seria? A minha paixão eu a transformaria numa borboleta azul bem grande! para voar alto , percorrendo distâncias e encantando a todos a sua volta.

Keeping Things Whole

In a field
I am the absence
of field.
This is
always the case.

Wherever I am
I am what is missing.
When I walk
I part the air
and always
the air moves in
to fill the spaces
where my body's been.

We all have reasons
for moving.
I move
to keep things whole.

(Mark Strand)

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Verso para comentário alheio...

... ou uma sugestão para a Fafau:

A metafísica estava tísica
Acabou morrendo

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Um post pra chamar de meu

Cá estou eu entre amigos e exposta ao mundo. Devo confessar que a sensação de ser lida me causa certo embaraço, mas isso é coisa de tímido. Porque tímido que é tímido tem vergonha até de se expor via blog! Vai que eu tropeço e caio na frente de vocês? Olha o vexame! Todo mundo comentando e rindo baixinho...e ainda tem aquele que entre uma gargalhada contida pergunta : “kikikikiki...machucou...kikiki?”.Por isso, sejam gentis, porque é a minha primeira vez...

Sr. Arthur disse que os textos têm que ser curtos, certo? Então, para não desagradar e, como diria Fafau, atrapalhar o bom andamento do grupo, vai um breve mimo:

DAS UTOPIAS

Se as coisas são inatingíveis... ora!

Não é motivo para não querê-las...

Que triste os caminhos, se não fora

A presença distante das estrelas!

(Mario Quintana)

Hora do almoço

O tempo já não passa mais tão rápido no trabalho hoje. Entrevista coletiva pela manhã, preparação, liga para as redações, vê quem vem - e veio pouca gente -, olho e ouvido atentos para as falácias e declarações inapropriadas, mais política que técnica, o tempo voa.

Já são 14h... cinco horas já se foram...

Agora, nem blog, casamento infantil, crônica da amizado, narro, escarro, cigarro, urso fumante e feliz, só faltou o casório, que é a palavra para casamento que mais gosto. Nem uma crônica para um blog coletivo é possível neste instante.

Tem a fome. E a vontade de fazer o tempo passar mais rápido. O almoço vai ser mais demorado que o habitual, e com direito a capuccino da Kopenhagen.

domingo, 9 de agosto de 2009

Abrindo espaços íntimos...

Oi, gente!

Estou me sentindo super hiper "estranha" participando de um blog.
Sempre "persegui" milhões por aí, mas ser convidada a participar de um nunca imaginei.
Finalmente descobri a vantagem de ser "tia".

Aliás nem sei como começar a "tal da postagem" de que todos falam....queria inserir uma imagem, nem sei onde ela vai parar...este "ambiente" é meio estranho pra mim; juro que tô meio perdida...mas vamos lá!

ah! prometo que este post é o primeiro e último grandão asssim.

Gosto demais deste texto que recebi de uma pessoa muito especial faz algum tempo; não sei quem é o autor; se aparecer é só me avisar, darei o devido credito.

"Abrindo espaços íntimos...

Ela sabia que a entrada daquele homem pela porta de sua casa não era uma coisa banal. Não chegava ser um terremoto, mas se preparava para alguns deslocamentos geológicos na sua alma.

Diria que ela propiciava que isto acontecesse, como se ali fosse se cumprir um ritual. E seria bom que ele também soubesse disto, que as pessoas não deviam entrar numa vida, numa casa e consequentemente num corpo de maneira desatenta e egoísta. A casa é lugar de permanência, mais que motel ou hotel. Exige cumplicidades mais delicadas. Contudo, precavida quanto a essa noção de permanêcia, sabendo que a vida às vezes é um deserto por onde passam caravanas e tuaregues, admitiu que já seria bom se a casa se convertesse num oásis.

Os primitivos sabem melhor que nós, pretensos civilizados, que estabanadamente banalizamos tudo que o ritual é que dá sentido aos fatos. Mínimos gestos ou certos instantes, podem se tornar históricos se estiverem entranhados desse ritmo denso de adágio que têm os rituais.

Cruzar um umbral, a soleira, ultrapassar um limite são coisas graves. Porque uma coisa é o ver, o aproximar-se, o apertar a mão, dar um sorriso e se tocar progressivamente procurando intimidade. Mais do que ocupar espaços, isto é ir povoando espaços.

Externamente é quando os amantes vão se ampliando, se alongando e habitando conjuntamente o que é público; o cinema, o restaurante, a caminhada na praia. Mas, de repente, estar na casa, na sala, na suite do outro, ver as roupas no closet, ver a escova e os grampos na bancada do banheiro, os vidros de perfume, aqueles objetos de decoração na mesa da sala, cinzeiros de prata, uma escultura da Polinésia ou cópia de uma santa barroca, isto, convenhamos, é estar com a alma exposta.

É como abrir portas, janelas e gavetas. Há o inesperado. E as pessoas e casas, que são senão gavetas dentro de gavetas, caixas dentro de caixas? Então, ir se aproximando de alguém, penetrar no espaço físico onde a figura amada habita é ir , como na estrutura da caixa chinesa, que contém outra e outras até, enfim, chegar ao latente coração do outro.

Essa mulher está rodeada de objetos que tiveram outra história, outras histórias. E durante algum tempo, como se estivesse num luto secreto adiou reinaugurar o leito, reencenar os gestos, esperar que outro homem fizesse brotar nela arrebatadamente em insuspeitadas regiões do seu corpo.

Até os objetos se deram conta que ela está oferecendo algo muito delicado. Daí uma cumplicidade entre os objetos da casa e o corpo dessa mulher. Eles também esperam que esse homem venha como um cauteloso conquistador. Há uma expectativa no ar, a comoda barroca guarda em suas volutas e elipses alguma tensão, o abajur emana uma contida luz e os tapetes parecem reanimar ternuras. Enfim, os objetos estão conscientes de seu papel de coadjuvantes.

Se ele ao invés da delicadeza do gato que é capaz de passar por taças de cristal sem quebrá-las, for do tipo invasor, um godo ou visigodo, que não controla os limites e fala preenchendo tudo egocentrica e desatentamente, então ocorrerá uma inapelável ruptura, a profanação do instante.

Ela gostaria que ele chegasse como o viajante que vindo de longe, no entanto, fala a sua língua. Alguém que não extrapolasse do presente nem invadisse seu passado e futuro. Ela o quer nos limites para os quais está preparada agora.

Ela gostaria que ele chegasse com a virilidade suave de um anjo. E que quando despertasse no dia seguinte tivesse aquela sensação do mito antigo, de que um deus dormiu lá em casa. Tranquila ela veria que a casa e todos os objetos estariam em ordem. Só que encantados. Encantados como ela que encantada sai para um novo dia com um sorriso de posse e confiança. Feliz."

E se olhasse para trás veria que os objetos da casa a contemplam cúmplices e igualmente felizes."

sábado, 8 de agosto de 2009

Da minha parte....

Quel, taí o vídeo que voce queria colocar...
Bjos

Simones ou Antônios_002

cigarro_ baseado, maconha, fumo, liamba, droga, erva, pango, riamba

Não me importo com as rimas..._001

cigarro_ amarro, agarro, barro, bizarro, carro, catarro, desgarro, esbarro, escarro, jarro, narro, pigarro, sarro, varro


sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Atendendo a pedidos: "A vida como ela é para crianças" (versão sintética)

V. Moral da História?
Era uma vez um cigarro e um gorila.

(Por favor, aqui não cabem argumentos como “gorilas não fumam” ou coisas do tipo. Trata-se de uma fábula, meu Deus.)

Bem, o gorila trabalhava cantando e fumando a primavera, o verão, o outono e o inverno inteiros. Era gentil e feliz, um exemplo de cidadão, muito querido e admirado por todos. E assim viveu, feliz para sempre.

Fim
Moral da história: o bom sujeito nada tinha de perfeito.
Ou ainda: Têm moral as boas histórias?

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Simones ou Antônios....

Então eu vou fazer assim... postar coisas bem pequenas!!!

Depois de ler os longos (porém ótimos) textos das meninas, fiquei pensando nas pessoas que tem pouco tempo, mas querem acompanhar esse tão comentado blog, escrito por pessoas inteligentíssimas.
Pensei então "cá comigo" em postar coisinhas curtas, mas interessantes o suficientes para que o leitor passe rapidamente e saia com algo na cabeça pra pensar o resto do dia. Vão aparecer letras de músicas, trechos de livros, poemas e afins, contos. Vou tentar transcrever comentários que ouço na rua, de estranhos e não estranhos. Vou fazer perguntas estranhas que geram respostas ainda mais estranhas, vou indicar sites, links e por ai vai.... como eu disse, coisas bem pequenas.

Ah, peço encarecidamente que desculpem o meu português ruim. Nem escrevo tão mal, mas perto dessas meninas, sou um mero amador na arte da escrita. Sim eu sei que existe dicionário, e para provar que utilizo o mesmo, dou início ao meu primeiro mini-post (assim vou chamá-los à partir de agora) no parágrafo a seguir.

Como eu já disse, deixarei aqui pequenas coisinhas sobre assuntos diversos. Uma delas justifica o título do meu mini-post.
Vez ou outra me aventuro como compositor e um dia resolvi comprar um dicionário de sinônimos e antônimos, pra me ajudar um pouco. Ajuda de vez em quando, mas nem sempre.
O que farei então é pegar uma palavra do último post, nesse caso o da Fafau, e deixar aqui as "simones" e os "antônios" dela.
Quem quiser pode sugerir alguma palavra e esperar pra ver se ela aparece.
Vai ser assim....

Simones ou Antônios_001

casamento_ matrimônio, consórcio, conúbio, enlace, esponsais, núpcias, himeneu, tálamo, união.

Foi um começo...depois tem mais!






A Vida como Ela é para Crianças (Continua...)

IV. Felizes para Sempre

Nunca um dia de escola fora tão aguardado. Ainda no pátio, ansioso, Henrique procurou por seu melhor amigo:
- E aí, João, perguntou?
- Perguntei! Mas o negócio é enrolado. Agora não vai dar. No recreio, no recreio...

Henrique, então, viu refletido nos óculos de João um grande vulto. Era ela: a professora. Teria que esperar ainda mais. Não se sabe até hoje sobre o que foi a aula aquele dia. Certo é que não foi sobre a questão que verdadeiramente afligia Henrique e João. Para eles, foi a aula mais longa do mundo.

Finalmente, os sinos soaram: era hora do recreio!

Nem bola jogaram aquele dia:
- O negócio é complicado, Henrique. Minha mãe ficou nervosa e eu não entendi muito bem a resposta. Acho que ela também não sabe direito.
- Mas o que ela falou, João? Conta logo.
- A história é longa e difícil de explicar. Ela disse que isso já existe há muito tempo e tem a ver com Deus, com a criação do homem. Tem também uma parte muito estranha que envolve uma maça.
- Maça? Mas como assim?
- Sei lá, Henrique. Minha mãe estava nervosa. Preferi não perguntar mais coisas. Acho que tem algum segredo aí. Ela perguntou muito porque eu queria saber isso...
- João, tente se lembrar das palavras que ela usou.
- Ela falava sem parar. Eu não me lembro de tudo. Mas ela falou sobre um véu branco, padres, vontade de ter filhos... O negócio é complicado, Henrique. Acho melhor pesquisar na internet.
- Mas você perguntou daquele jeito que a gente combinou? Falou: “Mãe, como é casamento?”
- Falei, pô. Juro.

Subitamente, os sinos soaram: terminara o recreio. Para eles, foi o recreio mais curto do mundo.

Henrique estava arrasado. O que poderia ser tão complicado que não dava para explicar com calma? Tinha, agora, mais uma dúvida: se é assim, porque tanta gente casa?

Os dias passaram enquanto Henrique tentava conciliar a sua nova rotina, cheia de casas, horários e regras. De alguma maneira, a conversa com João o havia ajudado. Era tudo tão complicado, que seus pais não poderiam mesmo explicar porque se separaram. Havia um segredo. E esse devia ser um segredo horrível!

Quando domingo chegou afinal, Henrique fugiu para a casa de seus avôs. Lá morava sua única tia solteira, que era também sua madrinha. Ela certamente não entendia nada de casamento, mas Henrique sabia que nela ele podia confiar. Começou por sua questão mais recente:
- Tia, por que as pessoas casam tanto?

Ela riu e respondeu em tom de brincadeira:
- Por causa dos domingos, meu filho.

Henrique, claro, não entendeu. Mas gostou do tamanho e da rapidez da resposta. Além disso, sua tia não tinha ficado nervosa e parecia estar se divertido com a conversa. Então, tomou coragem e lançou:
- Mas tia, como é casamento?

Novamente ela riu, mas dessa vez pensou um pouco antes de responder.
- Eu não sei exatamente, meu filho. Mas acho que é como uma vontade muito doida de ver o outro todo dia.

Seguiu-se um delicioso silêncio. Finalmente uma resposta que ele entendia! Henrique não via a hora de contar para João.

No dia seguinte, no pátio da escola, decidido a não esperar o recreio, Henrique procurou por seu melhor amigo:
- João, descobri tudo! Casamento é como uma vontade muito doida de ver o outro todo dia.
- Nossa! Ponderou João.
- Pois é. Pensei muito sobre isso no domingo e precisava te falar. Até porque, é um pouco estranho, mas descobri que somos casados.
- Ih é! Legal.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A Flor

Tenho certeza que se Saint Exupery estivesse vivo, e eu o convidasse a escrever nesse blog, ele toparia no ato. Então, partindo dessa premissa suuuper verdadeira, me permiti transcrever aqui dois trechos do Pequeno Príncipe.

São belas passagens, porque falam lindamente de relacionamento a dois. Toda vez que vejo meus relacionamentos se acabarem, volto a elas e releio cada palavra com muita atenção, para nunca mais esquecer.


"Pude bem cedo conhecer melhor aquela flor. Sempre houvera, no planeta do pequeno príncipe, flores muito simples, ornadas de uma só fileira de pétalas, e que não ocupavam lugar nem incomodavam ninguém. Apareciam certa manhã na relva, e já à tarde se extinguiam. Mas aquela brotara um dia de um grão trazido não se sabe de onde, e o principezinho vigiara de perto o pequeno broto, tão diferente dos outros. Podia ser uma nova espécie de baobá. Mas o arbusto logo parou de crescer, e começou então a preparar uma flor. O principezinho, que assistia à instalação de um enorme botão, bem sentiu que sairia dali uma aparição miraculosa; mas a flor não acabava mais de preparar-se, de preparar sua beleza, no seu verde quarto. Escolhia as cores com cuidado. Vestia-se lentamente, ajustava uma a uma sua pétalas. Não queria sair, como os cravos, amarrotada. No radioso esplendor da sua beleza é que ela queria aparecer. Ah! Sim. Era vaidosa. Sua misteriosa toalete, portanto, durara dias e dias. E eis que uma bela manhã, justamente à hora do sol nascer, havia-se, afinal, mostrado.

E ela, que se preparava com tanto esmero, disse, bocejando:

- Ah! Eu acabo de despertar... Desculpa... Estou ainda toda despenteada...
O principezinho, então, não pôde conter o seu espanto:
- Como és bonita!
- Não é? Respondeu a flor docemente. Nasci ao mesmo tempo que o sol...

O principezinho percebeu logo que a flor não era modesta. Mas era tão comovente!

- Creio que é hora do almoço, acrescentou ela. Tu poderias cuidar de mim...
E o principezinho, embaraçado, fora buscar um regador com água fresca, e servira à flor.

Assim, ela o afligira logo com sua mórbida vaidade. Um dia por exemplo, falando dos seus quatro espinhos, dissera ao pequeno príncipe:

- É que eles podem vir, os tigres, com suas garras!
- Não há tigres no meu planeta, objetara o principezinho. E depois, os tigres não comem erva.
- Não sou uma erva, respondera a flor suavemente.
- Perdoa-me...
- Não tenho receio dos tigres, mas tenho horror das correntes de ar. Não terias acaso um pára-vento?

"Horror das correntes de ar... Não é muito bom para uma planta, notara o principezinho. É bem complicada essa flor..."

- À noite me colocarás sob a redoma. Faz muito frio no teu planeta. Está mal instalado. De onde eu venho...

Mas interrompeu-se de súbito. Viera em forma de semente. Não pudera conhecer nada dos outros mundos. Humilhada por se ter deixado apanhar numa mentira tão tola, tossiu duas ou três vezes, para pôr a culpa no príncipe:

- E o pára-vento?
- Ia buscá-lo. Mas tu me falavas...

Então ela redobrara a tosse para infligir-lhe remorso.
Assim o principezinho, apesar da boa vontade do seu amor, logo duvidara dela. Tomara a sério palavras sem importância, e se tornara infeliz.

"Não a devia ter escutado - confessou-me um dia - não se deve nunca escutar as flores. Basta olhá-las, aspirar o perfume. A minha embalsamava o planeta, mas eu não me contentava com isso. A tal história das garras, que tanto me agastara, me devia ter enternecido..."

Confessou-me ainda:

"Não soube compreender coisa alguma! Devia tê-la julgado pelos atos, não pelas palavras. Ela me perfumava, me iluminava... Não devia jamais ter fugido. Devia ter-lhe adivinhado a ternura sob os seus pobres ardis. São tão contraditórias as flores! Mas eu era jovem demais para saber amar."

Creio que ele aproveitou, para evadir-se, pássaros selvagens que imigravam. Na manhã da partida, pôs o planeta em ordem. (...) Ele julgava nunca mais voltar. E, quando regou pela última vez a flor, e se dispunha a colocá-la sob a redoma, percebeu que estava com vontade de chorar.

- Adeus, disse ele à flor.

Mas a flor não respondeu.

- Adeus, repetiu ele.

A flor tossiu. Mas não era por causa do resfriado.

- Eu fui uma tola, disse por fim. Peço-te perdão. Trata de ser feliz.

A ausência de censuras o surpreendeu. Ficou parado, inteiramente sem jeito, com a redoma no ar. Não podia compreender essa calma doçura.

- É claro que eu te amo, disse-lhe a flor. Foi por minha culpa que não soubeste de nada. Isso não tem importância. Foste tão tolo quanto eu. Trata de ser feliz... Mas pode deixar em paz a redoma. Não preciso mais dela.
- Mas o vento...
- Não estou assim tão resfriada... O ar fresco da noite me fará bem. Eu sou uma flor.
- Mas os bichos...
- É preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas. Dizem que são tão belas! Do contrário, quem virá visitar-me? Tu estarás longe... Quanto aos bichos grandes, não tenho medo deles. Eu tenho as minhas garras.

E ela mostrava ingenuamente seus quatro espinhos. Em seguida acrescentou:

- Não demores assim, que é exasperante. Tu decidiste partir. Vai-te embora!
Pois ela não queria que ele a visse chorar. Era uma flor muito orgulhosa...


(...)
disse a raposa ...: - Anda, vai ver outra vez as rosas. Vais perceber que a tua é única no mundo. Quando vieres ter comigo, dou-te um presente de despedida: conto-te um segredo.

O principezinho lá foi ver as rosas outra vez.

- Vocês não são nada parecidas com a minha rosa! Vocês ainda não são nada - disse-lhes ele. (...) E as rosas ficaram bastante incomodadas.
- Vocês são bonitas, mas vazias - ainda lhes disse o principezinho. - Não se pode morrer por vocês. Claro que, para uma pessoa qualquer, a minha rosa é perfeitamente igual a vocês. Mas, sozinha, vale mais do que vocês todas juntas, porque foi a ela que eu reguei. Porque foi a ela que eu pus debaixo de uma redoma. Porque foi a ela que eu abriguei com o biombo. Porque foi a ela que eu matei as lagartas (pelo menos duas ou três, por causa das borboletas). Porque foi a ela que eu ouvi queixar-se, gabar-se e até, às vezes, calar-se. Porque ela é a minha rosa. E então voltou para o pé da raposa e disse:

- Adeus...
- Adeus - disse a raposa. - Vou-te contar o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos...
- O essencial é invisível para os olhos - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer. -Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... - repetiu o principezinho, para nunca mais esquecer.
- Os homens já se esqueceram desta verdade - disse a raposa. - Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por tudo o que está preso a ti. Tu és responsável pela tua rosa...
- Sou responsável pela minha rosa... - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer."

(O Pequeno Principe - Saint Exupery. Texto retirado do site http://www.kateweiss.art.br)

terça-feira, 4 de agosto de 2009

A Vida Como Ela é para Crianças (é melhor ir se acostumando)

Desde que me tornei mãe, em 8/5/2008, sinto vontade de escrever contos infantis. Talvez seja mais correta a expressão utilizada por minha irmã Elisa: “cometer”. Sinto vontade de cometer contos infantis!
Foi também Elisa quem sugeriu o inspirador nome da minha primeira obra. Trata-se de uma coletânea de contos esclarecedores, pelo menos para mim. É, claro, uma obra em construção.
Com vocês, os três primeiros contos de: “A Vida como ela é para Crianças. É Melhor Ir se Acostumando...”

I. O Bizarro Mundo da Fantasia

Chovia muito. Antonio e Zeca não podiam jogar bola. Zeca, então, puxou um assunto.

- Tuninho, você acredita em super homem?
- Claro, pô. Respondeu Antonio.
- Mas você acha que ele existe mesmo, voa e tudo?
- Claro. Eu hein, Zeca. Está maluco? Ele é amigo do meu pai.
- Eu sei, do meu também.

Zeca se calou por alguns minutos. Era tão difícil falar sobre essas coisas.

- Você já viu o super homem mesmo, assim, de olho aberto? Insistiu Zeca.
- Acho que sim... Nunca pensei nisso de olho aberto. Mas acho que sim. Sempre que eu quero, vejo o super homem.
- Eu também, Tuninho. Esse é o problema. Se a gente pensar nele ao mesmo tempo e em casas separadas, para quem ele aparece de verdade?

Antonio estava perplexo.

- Ando desconfiado de algumas coisas. Continou Zeca. Outro dia falei para a minha mãe que a nossa professora chegou atrasada porque o carro dela era um Transformer e teve que cumprir uma missão. Ela ficou uma fera, disse que a professora era mentirosa e que iria à escola e tudo!
- Mas a professora nunca disse isso, Zeca! Retrucou Antonio.
- Eu sei. Mas como a minha mãe pode saber disso? Ela nunca vai à aula.
- Sei lá, Zeca. Os adultos são muito estranhos.
- Pois é, Tuninho. Estou bolado com as coisas que os adultos dizem. Preciso entender a diferença entre verdade, fantasia e mentira. Mas só tenho você para perguntar.
- Nossa, Zeca. Eu não sei. Mas acho que fantasia é bom, mentira é ruim e verdade é tudo aquilo que os adultos falam.
- Estou bolado, Tuninho. Tenho pensado muito no Papai Noel...
- Ah não, Zeca. O Papai Noel não.

II. Não faça com os Outros o que não Gostaria que Fizessem com Você. Mas atenção!

Era uma vez uma menininha, muito bem educada, que sempre pensava antes de agir:

- Eu ficaria feliz se fizessem isso comigo?

Mais complicado era quando a menininha queria falar:
- Eu gostaria de ouvir o que tenho a dizer?

Eram reflexões filosóficas.

Por mais que a menininha estivesse sempre alerta, muitas vezes perdia o compasso de brincadeiras e de conversas com amigos. Piadas, então, perdia quase todas.

Mas valia a pena. Ela nunca se metia em brigas bobas e quando brigava, quase sempre, tinha razão. Assim, sobrava tempo para ela se preocupar com coisas muito mais interessantes:

- Por que o mar é salgado se a chuva é doce? Aliás, a chuva não é doce. Por que, então, falam assim?
- Por que a terra gira tanto? É só para ficar de dia e poder chegar o verão?
- É verdade que as baleias já andaram? Quem viu?
- Pelo amor de Deus, como faço para respirar de baixo d´água?
- Se todo mundo pensa antes de agir e falar, por que tem tanta confusão no mundo?

A menininha passava muito tempo com a sua avó, que era quem mais praticava com ela as reflexões filosóficas.

A avó sempre ouvia com atenção e buscava com muito entusiasmo respostas para os mistérios levantados pela menininha. Sobre esse último e grande mistério, porém, ela apenas suspirou e disse:

- Não sei, querida. Algumas pessoas simplesmente não se importam.

A menininha, como sempre, refletiu antes e disse em seguida:

- Que pena. Ainda bem que a gente não é assim!

III. A Morte e a Morte

Era uma vez um cachorrinho chamado Freud. Freud morava com os seus donos muito antes da chegada de Tomás. Para Tomás, as pessoas mais importantes do mundo eram: mamãe, papai e Freud. Dependendo do dia, essa ordem era outra.

Um dia, Freud não acordou bem. A verdade é que havia algum tempo que ele andava diferente. Já não ouvia, enxergava e comia direito e gostava mesmo era de ficar quieto num canto. No dia em que Freud não acordou bem, Tomás voltou correndo da escola para ficar com ele, mas encontrou o canto vazio.

Encontrou, porém, os seus pais calmos e alegres, esperando para lhe contar uma novidade: Freud havia viajado! Estava em uma fazenda linda, enorme, correndo feliz com outros cachorros por campos floridos ao som de passarinhos. Tomás não entendeu nada:

- Como assim? Freud já não corre e também quase não vê e escuta.

Tudo isso havia passado. Freud agora vivia feliz e saltitante em uma linda fazenda muito, mas muito distante e que não aceitava visitas. Tomás sabia que às vezes era difícil entender os adultos, mas estava agora profundamente decepcionado com os cachorros também.

Não disse a ninguém, mas dormiu chorando essa noite.

No dia seguinte, na escola, Tomás não conseguiu esconder completamente a sua tristeza e contou para os amigos mais próximos sobre a traição de Freud.

Para sua surpresa, aquela era uma fazenda muito popular. Os cachorros do João e do Roberto também adoeceram e foram para lá, sem se despedirem. O canário do Eduardo fez a mesma coisa. Agora, traição maior aconteceu com a Clarinha: primeiro a avó, e depois o avô dela foi para lá, sem nem avisar.

Não restava dúvida. Era uma conspiração e seus pais estavam envolvidos! Todos viviam felizes na fazenda distante e nem pensavam neles. Não chorariam mais!

Selaram, então, um pacto secreto: jamais iriam para a tal fazenda. E quando ficassem velhinhos ou doentes, se juntariam, para morrer como tem que ser, entre amigos queridos.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Quando os Tios Sukitas se Reunem

Eram sete e meia da noite. E estava decidido: nada mais de ficar falando de todas as mazelas do trabalho ou de todas aquelas paixões e amores que não deram (e não dão) certo, ou de como as pessoas estão malucas, e como está difícil de se relacionar com o sexo oposto. A decisão estava tomada: agora era sair a campo para se divertir tão somente, e isso significa que não importa o lugar, as pessoas e se está chovendo ou se está sol. O importante é ir em busca daquilo que se gosta.

E nesse sábado decidimos que gostamos de música da jovem guarda, dos anos 60 e de samba. Beleza. Nosso destino seria, então, o espaço cultural da ação da cidadania. Era o que anunciava o segundo caderno. Um antigo armazém reformado no bairro da Sáude, no Centro da Cidade, onde iam rolar shows de música dos anos 60 paralelamente à uma roda de samba com Nelson Sargento. Humm, delícia! E já estava eu me imaginando dançando o ie-ie-ie, e pulando ao som do twist and shout dos Beatles e, quando enjoasse, um sambinha de raiz para relaxar. Eclético, livre, alternativo, perfeito!

A programação começava cedo, às 20.30 hrs, o que é muito esquisito para os padrões cariocas. Eu devia ter desconfiado. Mas a animação com essa nossa nova vida, de muito futuro pela frente, me fez, mesmo cansada, tomar um banho correndo, me arrumar, pular num taxi e me dirigir pra casa da Marie, de onde partiríamos para os finalmente. Viemos animadamente conversando e cantando antigos sucessos no taxi.

A rua do espaço cultural estava deserta, mas em frente ao espaço já tinha algum certo movimento de carros estacionando e taxis parando. Foi quando olho pra fora da janela do carro e avisto aquilo que seria a nossa noite de fato, a realidade nua e crua na nossa frente: a reunião dos Tios Sukitas e das mulheres cinquentonas, colecionadoras de Faça Fácil, que há tempos apagaram a palavra "vergonha" do dicionário. Ah! E também de todos aqueles nossos professores de história e geografia dos tempo de colégio, o que significa dizer que havia uma profusão de homens carecas e grisalhos com rabinhos de cavalo e barriguinhas de chopp.

Meu Deus, Marie, olha isso! Estamos indo para os 40 anos de formatura do colégio da minha mãe! Escuto uma gargalhada e era a do taxista, que só podia ser um sádico, pensei. Marie, muito otimista, tentou me tranquilizar lembrando que era importante a nossa presença (aliás, quase missão) pra baixar a faixa etária do lugar. Mas que, no final, éramos mulheres livres e independentes e não tínhamos que ir pro ie-ie-ie, não, que podíamos sair dali a qualquer momento. Mas como somos bravas e fortes e filhas do norte (ou melhor, da Zona Norte) resolvemos enfrentar nossa missão e entramos no lugar.

Corta a cena apenas para contar pra vocês que o lugar é absolutamente incrível. Absurdamente grande e belo. Aquela beleza dos antigos armazéns, com um pé direito de 20 metros, tijolos e ferros aparentes. É quase como entrar numa dimensão paralela.

Bom, e lá estávamos nós, e eles: a jovem, agora velha, guarda que olhavam pra gente com um olhar muito do inquisidor, como se fôssemos do DOPS entrando na festa do grêmio estudantil. Ah, sim! Porque esqueci de falar que o nome da festa era "1968: 40 anos depois". E isso explica tudo. A estranheza dos olhares para duas meninas perdidas no meio de uma outra época. Para falar a verdade, nem os culpo, porque eu mesmo olhava para a Marie e ela para mim e nos perguntávamos o que diabos estávamos fazendo ali naquela noite de sábado.

O show acabou começando super tarde e como não poderia deixar de ser a banda era brega toda vida. Uma coisa meio anos 80, mas que tocava algumas músicas cliché dos anos 60, e os homens da banda estavam de abóbora e as mulheres de amarelo, o que para mim é um erro crasso (homem algum pode vestir abóbora, isso definitivamente não é cor, e amarelo também tenho lá minhas dúvidas). E ao mesmo tempo que eu e Marie tentávamos dançar alegre e displicentemente, tipo não-estamos-nem-aí-viemos-para-nos-divertir, não conseguíamos relaxar totalmente porque, volta e meia, éramos surpreendidas pelos nossos ex-professores de história a nos cercar e nos olhar com aquele olhar te-quero-demais. A gente até poderia se sentir lisonjeadas etc e tal, mas quando um deles veio conversar comigo, ele gritava tanto no meu ouvido e cuspia tanto em mim que cheguei à conclusão de que da mesma forma que provavelmente ele era surdo deveria também ser meio cego, então.... mudemos de parágrafo.

A roda de samba, bem, descobrimos que o Nelson Sargento apesar de animado -- porque entrou para cantar quase 1 da manhã -- não tem mais um pingo de voz, coitado! o que fez com que a roda de samba não fosse do Nelson Sargento, mas de outra pessoa que nunca vimos mais gorda. Foi quando então nossos olhares, meu e da Marie, se cruzaram e decidimos que já tínhamos nos divertido báááááarbaramente para aquele sábado e que era hora de ir embora.

O mais importante de tudo era ter cumprido a missão com sucesso, e isso creio que cumprimos. Não falamos dos nossos amores mal sucedidos nem das mazelas do trabalho. Tínhamos outro foco, afinal. E até que foi bacana de ver os Tios Sukitas e as cinquentonas desesperadas se divertindo pra valer. Acho que isso nos serviu de consolo no final das contas, porque, como negar?, eles somos nós amanhã.