terça-feira, 4 de agosto de 2009

A Vida Como Ela é para Crianças (é melhor ir se acostumando)

Desde que me tornei mãe, em 8/5/2008, sinto vontade de escrever contos infantis. Talvez seja mais correta a expressão utilizada por minha irmã Elisa: “cometer”. Sinto vontade de cometer contos infantis!
Foi também Elisa quem sugeriu o inspirador nome da minha primeira obra. Trata-se de uma coletânea de contos esclarecedores, pelo menos para mim. É, claro, uma obra em construção.
Com vocês, os três primeiros contos de: “A Vida como ela é para Crianças. É Melhor Ir se Acostumando...”

I. O Bizarro Mundo da Fantasia

Chovia muito. Antonio e Zeca não podiam jogar bola. Zeca, então, puxou um assunto.

- Tuninho, você acredita em super homem?
- Claro, pô. Respondeu Antonio.
- Mas você acha que ele existe mesmo, voa e tudo?
- Claro. Eu hein, Zeca. Está maluco? Ele é amigo do meu pai.
- Eu sei, do meu também.

Zeca se calou por alguns minutos. Era tão difícil falar sobre essas coisas.

- Você já viu o super homem mesmo, assim, de olho aberto? Insistiu Zeca.
- Acho que sim... Nunca pensei nisso de olho aberto. Mas acho que sim. Sempre que eu quero, vejo o super homem.
- Eu também, Tuninho. Esse é o problema. Se a gente pensar nele ao mesmo tempo e em casas separadas, para quem ele aparece de verdade?

Antonio estava perplexo.

- Ando desconfiado de algumas coisas. Continou Zeca. Outro dia falei para a minha mãe que a nossa professora chegou atrasada porque o carro dela era um Transformer e teve que cumprir uma missão. Ela ficou uma fera, disse que a professora era mentirosa e que iria à escola e tudo!
- Mas a professora nunca disse isso, Zeca! Retrucou Antonio.
- Eu sei. Mas como a minha mãe pode saber disso? Ela nunca vai à aula.
- Sei lá, Zeca. Os adultos são muito estranhos.
- Pois é, Tuninho. Estou bolado com as coisas que os adultos dizem. Preciso entender a diferença entre verdade, fantasia e mentira. Mas só tenho você para perguntar.
- Nossa, Zeca. Eu não sei. Mas acho que fantasia é bom, mentira é ruim e verdade é tudo aquilo que os adultos falam.
- Estou bolado, Tuninho. Tenho pensado muito no Papai Noel...
- Ah não, Zeca. O Papai Noel não.

II. Não faça com os Outros o que não Gostaria que Fizessem com Você. Mas atenção!

Era uma vez uma menininha, muito bem educada, que sempre pensava antes de agir:

- Eu ficaria feliz se fizessem isso comigo?

Mais complicado era quando a menininha queria falar:
- Eu gostaria de ouvir o que tenho a dizer?

Eram reflexões filosóficas.

Por mais que a menininha estivesse sempre alerta, muitas vezes perdia o compasso de brincadeiras e de conversas com amigos. Piadas, então, perdia quase todas.

Mas valia a pena. Ela nunca se metia em brigas bobas e quando brigava, quase sempre, tinha razão. Assim, sobrava tempo para ela se preocupar com coisas muito mais interessantes:

- Por que o mar é salgado se a chuva é doce? Aliás, a chuva não é doce. Por que, então, falam assim?
- Por que a terra gira tanto? É só para ficar de dia e poder chegar o verão?
- É verdade que as baleias já andaram? Quem viu?
- Pelo amor de Deus, como faço para respirar de baixo d´água?
- Se todo mundo pensa antes de agir e falar, por que tem tanta confusão no mundo?

A menininha passava muito tempo com a sua avó, que era quem mais praticava com ela as reflexões filosóficas.

A avó sempre ouvia com atenção e buscava com muito entusiasmo respostas para os mistérios levantados pela menininha. Sobre esse último e grande mistério, porém, ela apenas suspirou e disse:

- Não sei, querida. Algumas pessoas simplesmente não se importam.

A menininha, como sempre, refletiu antes e disse em seguida:

- Que pena. Ainda bem que a gente não é assim!

III. A Morte e a Morte

Era uma vez um cachorrinho chamado Freud. Freud morava com os seus donos muito antes da chegada de Tomás. Para Tomás, as pessoas mais importantes do mundo eram: mamãe, papai e Freud. Dependendo do dia, essa ordem era outra.

Um dia, Freud não acordou bem. A verdade é que havia algum tempo que ele andava diferente. Já não ouvia, enxergava e comia direito e gostava mesmo era de ficar quieto num canto. No dia em que Freud não acordou bem, Tomás voltou correndo da escola para ficar com ele, mas encontrou o canto vazio.

Encontrou, porém, os seus pais calmos e alegres, esperando para lhe contar uma novidade: Freud havia viajado! Estava em uma fazenda linda, enorme, correndo feliz com outros cachorros por campos floridos ao som de passarinhos. Tomás não entendeu nada:

- Como assim? Freud já não corre e também quase não vê e escuta.

Tudo isso havia passado. Freud agora vivia feliz e saltitante em uma linda fazenda muito, mas muito distante e que não aceitava visitas. Tomás sabia que às vezes era difícil entender os adultos, mas estava agora profundamente decepcionado com os cachorros também.

Não disse a ninguém, mas dormiu chorando essa noite.

No dia seguinte, na escola, Tomás não conseguiu esconder completamente a sua tristeza e contou para os amigos mais próximos sobre a traição de Freud.

Para sua surpresa, aquela era uma fazenda muito popular. Os cachorros do João e do Roberto também adoeceram e foram para lá, sem se despedirem. O canário do Eduardo fez a mesma coisa. Agora, traição maior aconteceu com a Clarinha: primeiro a avó, e depois o avô dela foi para lá, sem nem avisar.

Não restava dúvida. Era uma conspiração e seus pais estavam envolvidos! Todos viviam felizes na fazenda distante e nem pensavam neles. Não chorariam mais!

Selaram, então, um pacto secreto: jamais iriam para a tal fazenda. E quando ficassem velhinhos ou doentes, se juntariam, para morrer como tem que ser, entre amigos queridos.

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