segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Quando os Tios Sukitas se Reunem

Eram sete e meia da noite. E estava decidido: nada mais de ficar falando de todas as mazelas do trabalho ou de todas aquelas paixões e amores que não deram (e não dão) certo, ou de como as pessoas estão malucas, e como está difícil de se relacionar com o sexo oposto. A decisão estava tomada: agora era sair a campo para se divertir tão somente, e isso significa que não importa o lugar, as pessoas e se está chovendo ou se está sol. O importante é ir em busca daquilo que se gosta.

E nesse sábado decidimos que gostamos de música da jovem guarda, dos anos 60 e de samba. Beleza. Nosso destino seria, então, o espaço cultural da ação da cidadania. Era o que anunciava o segundo caderno. Um antigo armazém reformado no bairro da Sáude, no Centro da Cidade, onde iam rolar shows de música dos anos 60 paralelamente à uma roda de samba com Nelson Sargento. Humm, delícia! E já estava eu me imaginando dançando o ie-ie-ie, e pulando ao som do twist and shout dos Beatles e, quando enjoasse, um sambinha de raiz para relaxar. Eclético, livre, alternativo, perfeito!

A programação começava cedo, às 20.30 hrs, o que é muito esquisito para os padrões cariocas. Eu devia ter desconfiado. Mas a animação com essa nossa nova vida, de muito futuro pela frente, me fez, mesmo cansada, tomar um banho correndo, me arrumar, pular num taxi e me dirigir pra casa da Marie, de onde partiríamos para os finalmente. Viemos animadamente conversando e cantando antigos sucessos no taxi.

A rua do espaço cultural estava deserta, mas em frente ao espaço já tinha algum certo movimento de carros estacionando e taxis parando. Foi quando olho pra fora da janela do carro e avisto aquilo que seria a nossa noite de fato, a realidade nua e crua na nossa frente: a reunião dos Tios Sukitas e das mulheres cinquentonas, colecionadoras de Faça Fácil, que há tempos apagaram a palavra "vergonha" do dicionário. Ah! E também de todos aqueles nossos professores de história e geografia dos tempo de colégio, o que significa dizer que havia uma profusão de homens carecas e grisalhos com rabinhos de cavalo e barriguinhas de chopp.

Meu Deus, Marie, olha isso! Estamos indo para os 40 anos de formatura do colégio da minha mãe! Escuto uma gargalhada e era a do taxista, que só podia ser um sádico, pensei. Marie, muito otimista, tentou me tranquilizar lembrando que era importante a nossa presença (aliás, quase missão) pra baixar a faixa etária do lugar. Mas que, no final, éramos mulheres livres e independentes e não tínhamos que ir pro ie-ie-ie, não, que podíamos sair dali a qualquer momento. Mas como somos bravas e fortes e filhas do norte (ou melhor, da Zona Norte) resolvemos enfrentar nossa missão e entramos no lugar.

Corta a cena apenas para contar pra vocês que o lugar é absolutamente incrível. Absurdamente grande e belo. Aquela beleza dos antigos armazéns, com um pé direito de 20 metros, tijolos e ferros aparentes. É quase como entrar numa dimensão paralela.

Bom, e lá estávamos nós, e eles: a jovem, agora velha, guarda que olhavam pra gente com um olhar muito do inquisidor, como se fôssemos do DOPS entrando na festa do grêmio estudantil. Ah, sim! Porque esqueci de falar que o nome da festa era "1968: 40 anos depois". E isso explica tudo. A estranheza dos olhares para duas meninas perdidas no meio de uma outra época. Para falar a verdade, nem os culpo, porque eu mesmo olhava para a Marie e ela para mim e nos perguntávamos o que diabos estávamos fazendo ali naquela noite de sábado.

O show acabou começando super tarde e como não poderia deixar de ser a banda era brega toda vida. Uma coisa meio anos 80, mas que tocava algumas músicas cliché dos anos 60, e os homens da banda estavam de abóbora e as mulheres de amarelo, o que para mim é um erro crasso (homem algum pode vestir abóbora, isso definitivamente não é cor, e amarelo também tenho lá minhas dúvidas). E ao mesmo tempo que eu e Marie tentávamos dançar alegre e displicentemente, tipo não-estamos-nem-aí-viemos-para-nos-divertir, não conseguíamos relaxar totalmente porque, volta e meia, éramos surpreendidas pelos nossos ex-professores de história a nos cercar e nos olhar com aquele olhar te-quero-demais. A gente até poderia se sentir lisonjeadas etc e tal, mas quando um deles veio conversar comigo, ele gritava tanto no meu ouvido e cuspia tanto em mim que cheguei à conclusão de que da mesma forma que provavelmente ele era surdo deveria também ser meio cego, então.... mudemos de parágrafo.

A roda de samba, bem, descobrimos que o Nelson Sargento apesar de animado -- porque entrou para cantar quase 1 da manhã -- não tem mais um pingo de voz, coitado! o que fez com que a roda de samba não fosse do Nelson Sargento, mas de outra pessoa que nunca vimos mais gorda. Foi quando então nossos olhares, meu e da Marie, se cruzaram e decidimos que já tínhamos nos divertido báááááarbaramente para aquele sábado e que era hora de ir embora.

O mais importante de tudo era ter cumprido a missão com sucesso, e isso creio que cumprimos. Não falamos dos nossos amores mal sucedidos nem das mazelas do trabalho. Tínhamos outro foco, afinal. E até que foi bacana de ver os Tios Sukitas e as cinquentonas desesperadas se divertindo pra valer. Acho que isso nos serviu de consolo no final das contas, porque, como negar?, eles somos nós amanhã.

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