sábado, 29 de agosto de 2009

Mais louco é quem ... não é feliz

Um dia, e isso já faz muito tempo, estava eu dentro de um ônibus na rua Conde de Bonfim. Era um daqueles dias de calor profundo em que o ar pesa mais e todas as coisas parecem se mover em câmera lenta. Encostei a cabeça na janela e lembro de ter visto, do lado de for a, uma mendiga em cima da ilha de concreto, entre as duas pistas da Conde de Bonfim.

E assim, de repente, não mais que de repente, sem qualquer tipo de aviso prévio, aquela mulher negra, toda esfarrapada, começou a dançar.

Eram piruetas e rodopios, ora ela levantava uma perna ora outra, os pés, seus braços todos em graciosos movimentos no ar como os movimentos de uma bailarina. Mais alguns instantes e entramos num delicado minueto. Quem seria o seu par? Qual seria a música que estava tocando?... Aquela criatura dominava com desenvoltura seu estreito pedaço de concreto, como se estivesse nos populosos salões de Versalles em dia de baile (e quem disse que ela não estava?).

Olhei para os passageiros dentro do ônibus, para os carros na rua e para as pessoas que passavam apressadas. O mundo girava alheio àquela mulher, agora já vestida em toda a sua majestade. Olhei para mim e senti, por um momento, inveja daquela criatura. Aos meus olhos, ela brilhava. Como seria bom se pudéssemos não perceber, mesmo que por algumas horas somente, o mundo real, o mundo da razão. Como seria bom poder agir livremente, seguindo unicamente aos comandos da sua própria voz. Como seria libertador poder não dar ouvidos o tempo todo ao senso comum, ao mundo do lado-de-fora, onde as pessoas só dançam com músicas de verdade e nunca, nunca no meio da rua, no meio do dia, no meio do caos.

Eu juro que é melhor não ser o normal. Se eu posso pensar que Deus sou eu ... por que não?

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