Glorinha encostou a cabeça na janela do ônibus. Ajeitou a bolsa no colo, apoiou seus braços em cima dela e olhou em direção à rua. Chovia. Durante o trajeto, seis passageiros sentaram e levantaram do seu lado, sem que Glorinha tivesse se importado ao ponto de olhar para eles, permanecendo o tempo todo na mesma posição. Até que desencostou a cabeça da janela, ajeitou os ombros, levantou e pediu parada.
Já passavam das onze horas da noite. A rua deserta e úmida fazia ecoar mais alto o barulho do seu salto contra o chão. O prédio onde morava não tinha porteiro, era daqueles prédios antigos, década de 50, sem elevador. Glorinha morava no apartamento 405. Subiu os quatro lances de escada enquanto ouvia, e só ouvia, sua própria respiração. A cada andar que subia, ia acendendo as luzes fracas dos corredores que mal iluminavam seus passos.
Ao abrir a porta de casa, ouviu o barulho da televisão. A luz da sala estava acesa e João sentado no sofá com os olhos fixos na tela. Colocou a bolsa e chave na mesinha ao lado da porta, e se encaminhou na direção de João. Chegou até o meio da sala, ameaçou falar, mas como seus olhos não se desviaram para ela, desistiu. Glorinha deu meia volta, entrou no banheiro e fechou a porta.
De frente para o espelho se olhou e suspirou. Seus olhos percorreram seu rosto. Ainda não tinha rugas. A pele muito branca, o cabelo castanho escuro e a boca amarronzada pelo batom faziam contraste com a blusa verde garrafa, que ela mesma tinha feito. Escutava a televisão ao fundo. Seus pensamentos a levaram para longe dali. Quando voltou a si percebeu pelo espelho que lágrimas escorriam pelo seu rosto.
E assim como as lágrimas, Glorinha deixou-se cair. Ajoelhada no chão do banheiro segurou o rosto com as mãos, numa tentativa de se manter dentro de si mesma. Mas era inútil, suas lágrimas e soluços transpassavam a barreira de seu corpo.
Ficou agachada em prantos até ouvir a televisão ser desligada. Assustada, levantou num salto e ligou o chuveiro. O barulho da água iria abafar e disfarçar o barulho do seu choro. Ela não queria que João a ouvisse.
Quando saiu do banheiro as luzes da casa já estavam todas apagadas. João dormia no quarto. Como de costume, no canto da cama de costas para ela e de frente para a parede. Glorinha então destrancou uma das gavetas do armário e apanhou um velho caderno. Foi para a sala, acendeu o pequeno abajur ao lado do sofá e, no silêncio da noite e da vida, começou a folhear e ler suas últimas anotações:
15 de setembro de 2001….“em que momento a vida que planejei e sonhei pra mim escapou das minhas mãos?”… 10 de agosto de 2002 “ muitas vezes me pergunto se é melhor viver ao lado de alguém, e ter a ilusão de que tenho alguém, ou me encarar sozinha, sabendo que sou apenas eu e mais ninguém?”… 25 de março de 2003 “por que deixei de acreditar que poderia encontrar um amor companheiro, por que deixei de acreditar que poderia viver uma relação feliz?”… 30 de outubro de 2003 “meus sonhos, meus projetos para onde foram?”…. 02 de março de 2004 “me sinto tão aprisionada”….
Ao relembrar seus últimos anos de vida, Glorinha chorou novamente. E entre um soluço e outro, em meio a seu pranto, abriu uma página em branco e escreveu:
"30 de julho de 2004, descobri que estou grávida."
3 comentários:
Amiga,
E passamos para a literatura! Que bacana.
beijos,
Zé
Zé, considerando que você elevou e muito o nível desse blog aqui, só cabe a nós correr atrás do prejuízo.
Aliás, vou lançar o prêmio Elefante revelação e não tenho dúvidas de que você vai ter que preparar o seu discursso. ;-)
Rapaz,
temos de lançar o Prêmio Elefesso de Crônicas nesse blog. Tá uma belezura isso aqui.
Tô de greve. Só volto depois da lua de mel.
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