domingo, 30 de agosto de 2009

A Ditadura Debochada

Sérgio e Lucia arrumavam as coisas na casa nova, quando ela abriu a caixa com os livros dele.

Tinham decidido morar juntos há um mês, e tudo ainda era novidade. Lucia maravilhava-se com cada coisa que faziam e, à medida que ela ia tirando os livros dele da caixa, sua teoria de que se casara com um homem inteligente, sensível, culto e politizado apenas se confirmava. Ele tinha todos os livros do Chico, incluindo os songbooks. Claro, porque além de tudo, Sérgio ainda tocava violão. Vários livros sobre futebol, sua grande paixão, mas todos com um quê cult, tipo “Nietzsche desvenda o mito em Pelé”. Pousou os olhos sobre os livros do Eduardo Galeano, de quem não ouvia falar desde que lera, ainda adolescente, “As Veias Abertas da América Latina” – quando começou a entender que o mundo não era cor-de-rosa – até que sua atenção foi chamada para a antologia sobre a ditadura militar, do Elio Gaspari.

− Os livros da ditadura! – exclamou, já se envergonhando por seu entusiasmo quase infantil diante de uma coisa tão séria – Sempre quis ler, mas... – calou-se, pensando na lista de cerca de 150 livros que sempre quisera ler, mas...

− É, acho que são quatro ou cinco, mas não sei onde estão os outros – disse Sérgio, enquanto tentava achar o livro grande sobre o Maracanã.

− Não, acho que são só três mesmo. O último é “A Ditadura Derrotada” – disse ela.

Aí, Lucia pensou na democracia e veio à sua mente um turbilhão de nomes, imagens e acontecimentos – Sarney, Collor, FHC, Lula e, finalmente, Sarney, de novo... O Tancredo morto; Coração de Estudante; as pessoas se abrigando da chuva sob o bandeirão em Brasília; o Sarney e o bigode mexicano; o Cruzado; a Maria da Conceição Tavares chorando por causa do Cruzado (!?!?); o Funaro tentando explicar a demanda e a oferta, parecendo o romano do “Obelix e Cia”; a tablita; a Sunab, e os fiscais; a Jandira Feghali antes do creme sem enxágue gritando “Delegada neles”; as donas de casa “fechando esse estabelecimento em nome do meu presidente”; o confisco; a Zélia; a Zélia namorando o Bernardo Cabral; a Zélia casando com o Chico Anísio (!!!); o Magri; o PC Farias; o PC Farias morto num crime passional (ah, tá...); os cara-pintadas por causa da série da Globo; o impeachment; o topete do Itamar; o Itamar no camarote dos bicheiros com a Lilian Ramos sem calcinha e o Maurício Correia; o Maurício Correia Ministro da Justiça; o Maurício Correia Ministro do STF; os anões do orçamento; o ACM presidente do Senado; os sobretudos do Fernando Henrique; o Fernando Henrique e a intelectualidade; o Fernando Henrique e a Sorbonne; o Fernando Henrique quase triste por não ter nascido francês; a Vale e a CSN vendidas sem que ninguém tenha entendido direito o porquê; o escândalo da reeleição; o escândalo da venda das teles e o presidente não sabendo de nada; o escândalo do mensalão; o Zé Dirceu; o Palocci e o caseiro; o Delúbio Soares; os dólares na cueca; o Jacinto Lamas; (nome que, no fim das contas, resume o que o PT se tornou); e o presidente não sabendo de nada; e agora tudo culminado drasticamente no Sarney de novo, o homem que foi o símbolo da Nova República, mas que vinha de uma República mais velha do que a sua avó.

De repente, Lucia parou. Não tinha certeza de quanto tempo havia durado o transe.

− Bem, não sei se são três livros mesmo – disse, afinal – Mas com certeza faltou um. “A Ditadura Debochada”.

− Debochada? − perguntou Sérgio.

− É. Dessa merda de democracia que veio depois.

*Marie é obviamente democrata e admira todo mundo que lutou contra a ditadura. Mas ficaria muito puta se tivesse pegado em armas pelo direito do Sarney de governar o Senado.

* Lucia se confundiu. Há um quarto livro - "A Ditadura Encurralada".

3 comentários:

Quel Sarinho disse...

Marie querida, seja muito bem-vinda! Que bom que você se juntou a nós. Fiquei feliz. Manda um beijo pro Sérgio ;-)

Juliana Sarinho disse...

Marie, sinceramente, só você poderia ter rememorado, em um único parágrafo, todos esses eventos! Senti falta do hino interpretado pela Fafá de Belém...Bjs e sinta-se em casa.

Leonardo Zanelli disse...

Ju,

acho que, pro texto da Marie, o melhor é o Hino interpretado pela Vanusa ;-)