sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Me contaram...

Ninguém entrava no quarto de música dele. Era praticamente um santuário. Tinha vinil, fita, 78 rotações, md, cd, dvd, tudo. Era um colecionador. Pagava o que fosse, trabalhava pra isso. Ia até o fim do mundo. Até um pouquinho depois do fim do mundo, atrás de um single perdido nos confins da Nepal. Ele chegou a ir até lá mesmo, atrás de um disco raro de Led Zeppellin. Só os clássicos, só colecionava os clássicos. Os amigos tinham inveja, curiosidade. Tinha mais moral no grupo aquele que chegasse mais perto do quarto do Cabelo. Não, ninguém nunca tinha entrado lá. Isso era praticamente impossível. Um dia tentaram convencer a Isabel de seduzir o cabelo e pedir a ele pra transarem no quarto de música, tipo uma tara. Ela até pensou no assunto, tentou dar em cima do Cabelo, mas ele era irredutível, ninguém entrava. Nem a mãe dele, Dona Carmen, entrava. Nem pra limpar! Ele mesmo limpava o quarto. Tinha luz especial, aroma, tratamento acústico. Ele passava horas, às vezes dias, sem sair de lá. Tinha daquelas janelinhas por onde Dona Carmen passava a comida pra ele. De repente ele saia com a cara mais tranqüila do mundo, em estado de graça. “Só os clássicos, só ouço os clássicos...” dizia ele. Um dia o encontraram morto, enforcado num rolo de fita cassete com um bilhete ao lado. Tinha ouvido falar de uma gravação de Zeca Pagodinho cantando Nirvana. Fita única. Enforcou-se quando soube que a fita havia se perdido num incêndio no apartamento do dono. Preferia morrer a não ter a fita do Zeca cantando Kurt. Dizia o bilhete: “Porque fiz isso? Pô, o Zeca é um clássico!”

Um comentário:

Leonardo Zanelli disse...

Já imaginei o cavaco fazendo o riff inicial, bem cadenciado, quase num chorinho, e o Zeca entrando em seguida, com sua voz embargada, preciosa, inconfundível: "cãme (um breque) ésiuar..."

E viva o Zeca, mais que o Kurt!