quinta-feira, 6 de agosto de 2009

A Vida como Ela é para Crianças (Continua...)

IV. Felizes para Sempre

Nunca um dia de escola fora tão aguardado. Ainda no pátio, ansioso, Henrique procurou por seu melhor amigo:
- E aí, João, perguntou?
- Perguntei! Mas o negócio é enrolado. Agora não vai dar. No recreio, no recreio...

Henrique, então, viu refletido nos óculos de João um grande vulto. Era ela: a professora. Teria que esperar ainda mais. Não se sabe até hoje sobre o que foi a aula aquele dia. Certo é que não foi sobre a questão que verdadeiramente afligia Henrique e João. Para eles, foi a aula mais longa do mundo.

Finalmente, os sinos soaram: era hora do recreio!

Nem bola jogaram aquele dia:
- O negócio é complicado, Henrique. Minha mãe ficou nervosa e eu não entendi muito bem a resposta. Acho que ela também não sabe direito.
- Mas o que ela falou, João? Conta logo.
- A história é longa e difícil de explicar. Ela disse que isso já existe há muito tempo e tem a ver com Deus, com a criação do homem. Tem também uma parte muito estranha que envolve uma maça.
- Maça? Mas como assim?
- Sei lá, Henrique. Minha mãe estava nervosa. Preferi não perguntar mais coisas. Acho que tem algum segredo aí. Ela perguntou muito porque eu queria saber isso...
- João, tente se lembrar das palavras que ela usou.
- Ela falava sem parar. Eu não me lembro de tudo. Mas ela falou sobre um véu branco, padres, vontade de ter filhos... O negócio é complicado, Henrique. Acho melhor pesquisar na internet.
- Mas você perguntou daquele jeito que a gente combinou? Falou: “Mãe, como é casamento?”
- Falei, pô. Juro.

Subitamente, os sinos soaram: terminara o recreio. Para eles, foi o recreio mais curto do mundo.

Henrique estava arrasado. O que poderia ser tão complicado que não dava para explicar com calma? Tinha, agora, mais uma dúvida: se é assim, porque tanta gente casa?

Os dias passaram enquanto Henrique tentava conciliar a sua nova rotina, cheia de casas, horários e regras. De alguma maneira, a conversa com João o havia ajudado. Era tudo tão complicado, que seus pais não poderiam mesmo explicar porque se separaram. Havia um segredo. E esse devia ser um segredo horrível!

Quando domingo chegou afinal, Henrique fugiu para a casa de seus avôs. Lá morava sua única tia solteira, que era também sua madrinha. Ela certamente não entendia nada de casamento, mas Henrique sabia que nela ele podia confiar. Começou por sua questão mais recente:
- Tia, por que as pessoas casam tanto?

Ela riu e respondeu em tom de brincadeira:
- Por causa dos domingos, meu filho.

Henrique, claro, não entendeu. Mas gostou do tamanho e da rapidez da resposta. Além disso, sua tia não tinha ficado nervosa e parecia estar se divertido com a conversa. Então, tomou coragem e lançou:
- Mas tia, como é casamento?

Novamente ela riu, mas dessa vez pensou um pouco antes de responder.
- Eu não sei exatamente, meu filho. Mas acho que é como uma vontade muito doida de ver o outro todo dia.

Seguiu-se um delicioso silêncio. Finalmente uma resposta que ele entendia! Henrique não via a hora de contar para João.

No dia seguinte, no pátio da escola, decidido a não esperar o recreio, Henrique procurou por seu melhor amigo:
- João, descobri tudo! Casamento é como uma vontade muito doida de ver o outro todo dia.
- Nossa! Ponderou João.
- Pois é. Pensei muito sobre isso no domingo e precisava te falar. Até porque, é um pouco estranho, mas descobri que somos casados.
- Ih é! Legal.

2 comentários:

Quel Sarinho disse...

Ai, Fau, esse sem dúvida é o melhor casamento: a amizade.

Flávia Constant disse...
Este comentário foi removido pelo autor.