João cruza a sala. Anna abre os olhos.
-- E, aí, Anna, meditou?
-- Meditei..... João, você devia meditar também, sabia? Você é muito nervosinho. Meditar traz a maior paz, impressionante.
Esse blog nasceu para ser construído coletivamente por pessoas que não se levam a sério.
Todo mundo acha que pode, acha que é pop, acha que é poeta.
Todo mundo tem razão e vence sempre na hora certa.
Todo mundo prova sempre pra si mesmo que não há derrota.
Todo homem tem voz grossa e tem pau grande,
E é maior do que o meu, do que o seu, do que o do Pedro Sá
Todo mundo é referência e se compara só pra ver que é melhor.
Todo mundo é mais bonito do que eu mas eu sou mais que todos.
Todo mundo tem suingue, é feliz, é forte e sabe sambar.
Todos querem mas não podem admitir a coexistência do orgulho e do amor porque:
Eu sou melhor que você, Boa viagem.
Eu sou melhor que você mas por favor fique comigo que eu não tenho mais ninguém
Todo mundo diz que sabe e quando diz que não sabe é porque,
é charmoso não saber algo que todas as pessoas já sabem como é.
Todo mundo é especial, é original, é o que todos queriam ser.
Não basta ser inteligente, tem que ser mais do que o outro pra ele te reconhecer.
Todo mundo ganha grana pra dizer que ela não vale nada.
Todo mundo diz que é contra a violência e sempre dá porrada.
Todos querem se apaixonar sem se arriscar, nem se expor e nem sofrer.
Todas querem vida fácil sem ser puta e com reputação,
Se reprimem e começam a dizer:
Eu sou melhor que você.
Eu sou melhor que você mas por favor fique comigo que eu não tenho mais ninguém!
É melhor que você,
Mais ninguém é melhor que você.
Todo mundo acha que pode, acha que é pop, acha que é poeta.
Alergia
Ele subia degrau por degrau ainda pensando no que ia falar pra ela.
Na noite anterior não tinha conseguido nem dormir, o coitado.
Tinha errado sim, mas foi no impulso, sem querer. Achou que pra ela, não faria diferença.
_Ela nunca tinha ligado pra isso mesmo!_Pensava alto e parecia que ia desabar a qualquer momento.
Parou no meio, pensou em descer, preferiu esperar mais um pouco. Respirou fundo! Tirou a gravata, ele não precisava disso, a gravata não ia fazer diferença.
Ele suava, em bicas. Tinha acabado de tomar banho não tinha nem vinte minutos. Era nervoso, ele não era de suar assim.
Sentou! Algumas pessoas passaram perguntando se estava tudo bem. “Porque? To parecendo doente? Com que cara eu to? Eu to bem, pô!” Ele pensava mais que falava, na verdade nem falava, só respondia com um abano de cabeça, ou um leve gesto de sobrancelhas. Mas suava, em bicas.
Não ia subir mais, estava decidido. Desceu, encostou no carro. Tirou do bolso a carta que tinha escrito no dia anterior. Escrito não, digitado e impresso, até porque, nervoso do jeito que estava, não ia conseguir escrever uma linha reta.
Releu, achou uma bosta. Estava tenso quando escreveu, só agora via que não tinha escrito nada com nada. Simplesmente palavras soltas no papel que agora já estava até meio amassado da viagem de ônibus até a Rua do Meio, onde ela morava.
Pensou em ir embora de uma vez, mas voltou atrás, tinha que falar com ela, foi pra isso que ele tinha ido lá, não dava pra voltar atrás agora.
Será que ela ia aceitar ele de volta?
Ele estava morrendo de medo, nunca havia amado alguém assim.
Tinha comprado até uma dúzia de flores pra ela dois dias antes, nunca tinha feito isso pra ninguém. Haviam se conhecido há duas semanas.
_Como eu ia saber que ela era alérgica a flores?.
Glorinha encostou a cabeça na janela do ônibus. Ajeitou a bolsa no colo, apoiou seus braços em cima dela e olhou em direção à rua. Chovia. Durante o trajeto, seis passageiros sentaram e levantaram do seu lado, sem que Glorinha tivesse se importado ao ponto de olhar para eles, permanecendo o tempo todo na mesma posição. Até que desencostou a cabeça da janela, ajeitou os ombros, levantou e pediu parada.
Já passavam das onze horas da noite. A rua deserta e úmida fazia ecoar mais alto o barulho do seu salto contra o chão. O prédio onde morava não tinha porteiro, era daqueles prédios antigos, década de 50, sem elevador. Glorinha morava no apartamento 405. Subiu os quatro lances de escada enquanto ouvia, e só ouvia, sua própria respiração. A cada andar que subia, ia acendendo as luzes fracas dos corredores que mal iluminavam seus passos.
Ao abrir a porta de casa, ouviu o barulho da televisão. A luz da sala estava acesa e João sentado no sofá com os olhos fixos na tela. Colocou a bolsa e chave na mesinha ao lado da porta, e se encaminhou na direção de João. Chegou até o meio da sala, ameaçou falar, mas como seus olhos não se desviaram para ela, desistiu. Glorinha deu meia volta, entrou no banheiro e fechou a porta.
De frente para o espelho se olhou e suspirou. Seus olhos percorreram seu rosto. Ainda não tinha rugas. A pele muito branca, o cabelo castanho escuro e a boca amarronzada pelo batom faziam contraste com a blusa verde garrafa, que ela mesma tinha feito. Escutava a televisão ao fundo. Seus pensamentos a levaram para longe dali. Quando voltou a si percebeu pelo espelho que lágrimas escorriam pelo seu rosto.
E assim como as lágrimas, Glorinha deixou-se cair. Ajoelhada no chão do banheiro segurou o rosto com as mãos, numa tentativa de se manter dentro de si mesma. Mas era inútil, suas lágrimas e soluços transpassavam a barreira de seu corpo.
Ficou agachada em prantos até ouvir a televisão ser desligada. Assustada, levantou num salto e ligou o chuveiro. O barulho da água iria abafar e disfarçar o barulho do seu choro. Ela não queria que João a ouvisse.
Quando saiu do banheiro as luzes da casa já estavam todas apagadas. João dormia no quarto. Como de costume, no canto da cama de costas para ela e de frente para a parede. Glorinha então destrancou uma das gavetas do armário e apanhou um velho caderno. Foi para a sala, acendeu o pequeno abajur ao lado do sofá e, no silêncio da noite e da vida, começou a folhear e ler suas últimas anotações:
15 de setembro de 2001….“em que momento a vida que planejei e sonhei pra mim escapou das minhas mãos?”… 10 de agosto de 2002 “ muitas vezes me pergunto se é melhor viver ao lado de alguém, e ter a ilusão de que tenho alguém, ou me encarar sozinha, sabendo que sou apenas eu e mais ninguém?”… 25 de março de 2003 “por que deixei de acreditar que poderia encontrar um amor companheiro, por que deixei de acreditar que poderia viver uma relação feliz?”… 30 de outubro de 2003 “meus sonhos, meus projetos para onde foram?”…. 02 de março de 2004 “me sinto tão aprisionada”….
Ao relembrar seus últimos anos de vida, Glorinha chorou novamente. E entre um soluço e outro, em meio a seu pranto, abriu uma página em branco e escreveu:
"30 de julho de 2004, descobri que estou grávida."
− Os livros da ditadura! – exclamou, já se envergonhando por seu entusiasmo quase infantil diante de uma coisa tão séria – Sempre quis ler, mas... – calou-se, pensando na lista de cerca de 150 livros que sempre quisera ler, mas...
Aí, Lucia pensou na democracia e veio à sua mente um turbilhão de nomes, imagens e acontecimentos – Sarney, Collor, FHC, Lula e, finalmente, Sarney, de novo... O Tancredo morto; Coração de Estudante; as pessoas se abrigando da chuva sob o bandeirão em Brasília; o Sarney e o bigode mexicano; o Cruzado; a Maria da Conceição Tavares chorando por causa do Cruzado (!?!?); o Funaro tentando explicar a demanda e a oferta, parecendo o romano do “Obelix e Cia”; a tablita; a Sunab, e os fiscais; a Jandira Feghali antes do creme sem enxágue gritando “Delegada neles”; as donas de casa “fechando esse estabelecimento em nome do meu presidente”; o confisco; a Zélia; a Zélia namorando o Bernardo Cabral; a Zélia casando com o Chico Anísio (!!!); o Magri; o PC Farias; o PC Farias morto num crime passional (ah, tá...); os cara-pintadas por causa da série da Globo; o impeachment; o topete do Itamar; o Itamar no camarote dos bicheiros com a Lilian Ramos sem calcinha e o Maurício Correia; o Maurício Correia Ministro da Justiça; o Maurício Correia Ministro do STF; os anões do orçamento; o ACM presidente do Senado; os sobretudos do Fernando Henrique; o Fernando Henrique e a intelectualidade; o Fernando Henrique e a Sorbonne; o Fernando Henrique quase triste por não ter nascido francês; a Vale e a CSN vendidas sem que ninguém tenha entendido direito o porquê; o escândalo da reeleição; o escândalo da venda das teles e o presidente não sabendo de nada; o escândalo do mensalão; o Zé Dirceu; o Palocci e o caseiro; o Delúbio Soares; os dólares na cueca; o Jacinto Lamas; (nome que, no fim das contas, resume o que o PT se tornou); e o presidente não sabendo de nada; e agora tudo culminado drasticamente no Sarney de novo, o homem que foi o símbolo da Nova República, mas que vinha de uma República mais velha do que a sua avó.
De repente, Lucia parou. Não tinha certeza de quanto tempo havia durado o transe.
− Bem, não sei se são três livros mesmo – disse, afinal – Mas com certeza faltou um. “A Ditadura Debochada”.
− Debochada? − perguntou Sérgio.
− É. Dessa merda de democracia que veio depois.
*Marie é obviamente democrata e admira todo mundo que lutou contra a ditadura. Mas ficaria muito puta se tivesse pegado em armas pelo direito do Sarney de governar o Senado.
* Lucia se confundiu. Há um quarto livro - "A Ditadura Encurralada".
Aconteceu de Novo...
Tocou a campainha e lá estava ele, um entregador que tinha medo de cachorro. Até aí tudo indicava que seria mais uma entrega ordinária.
Mas aquela era uma farmácia diferente, primeiro porque eu estava na casa de meus pais; mas, principalmente, porque lá trabalhava o entregador que tinha medo de cachorro. Ao fazer o pedido por telefone, informei categoricamente que pagaria
Sem opção melhor, fiz uma conta por alto, peguei todo o dinheiro que tinha na carteira e atendi a porta confiante de que tudo daria certo. Driblei os dois cachorros de meus pais e abri o portão ansiosa para perguntar: “moço, quanto deu mesmo?”.
Para a minha surpresa, tive antes que encontrar o acuado entregador. Aquela imagem me quebrou e optei por um preâmbulo:
- Medo de cachorro, é?
Ele então me olhou com muita sabedoria e respondeu:
-Melhor não arriscar. A gente nunca sabe.
Só me restava concordar e ir direto ao ponto:
- É... Moço, quanto deu mesmo?
Veio a resposta e eu percebi que faltavam cinqüenta míseros centavos, além da habitual gorjeta. Por puro reflexo, tentei a sorte:
- Moço, posso ficar te devendo cinqüenta centavos?
Ele ponderou e respondeu com muita firmeza, já saindo:
- Fique tranqüila, eu intero do meu bolso.
Eu, em estado de choque, só consegui falar:
- Não, por favor, espere um minuto.
Entrei novamente na casa dos meus pais, tomando cuidado para os cachorros não fugirem, claro, e comecei a procurar. Havia de ter uma moeda em algum lugar. Encontrei, porém, o meu cunhado, que solidário com a minha busca e emocionado com a história do raro entregador me deu dez vezes mais do que o valor procurado!
Corri ao encontro do entregador, que ao ver a nota que eu trazia disse:
- Que isso, moça? Não precisava. É muita gentileza.
Respondi sem pestanejar:
- Nem vem. Foi você quem começou.
No dia seguinte, gastamos mais em gasolina do que o valor da cortina para buscá-la. Mas já não tinha mais preço. Fomos movidos pela esperança de avistar, mesmo que de longe, esse raro ser humano: Paulo!
Nota do autor: esse é um elogio explícito a pessoa de Paulo, o profissional responsável. Não deve, em nenhuma hipótese, se estendido à loja em questão. Não tenho nada contra a tal loja, mas é que não acredito mais em pessoas jurídicas. Elas são muito estranhas.
Ninguém entrava no quarto de música dele. Era praticamente um santuário. Tinha vinil, fita, 78 rotações, md, cd, dvd, tudo. Era um colecionador. Pagava o que fosse, trabalhava pra isso. Ia até o fim do mundo. Até um pouquinho depois do fim do mundo, atrás de um single perdido nos confins da Nepal. Ele chegou a ir até lá mesmo, atrás de um disco raro de Led Zeppellin. Só os clássicos, só colecionava os clássicos. Os amigos tinham inveja, curiosidade. Tinha mais moral no grupo aquele que chegasse mais perto do quarto do Cabelo. Não, ninguém nunca tinha entrado lá. Isso era praticamente impossível. Um dia tentaram convencer a Isabel de seduzir o cabelo e pedir a ele pra transarem no quarto de música, tipo uma tara. Ela até pensou no assunto, tentou dar em cima do Cabelo, mas ele era irredutível, ninguém entrava. Nem a mãe dele, Dona Carmen, entrava. Nem pra limpar! Ele mesmo limpava o quarto. Tinha luz especial, aroma, tratamento acústico. Ele passava horas, às vezes dias, sem sair de lá. Tinha daquelas janelinhas por onde Dona Carmen passava a comida pra ele. De repente ele saia com a cara mais tranqüila do mundo, em estado de graça. “Só os clássicos, só ouço os clássicos...” dizia ele. Um dia o encontraram morto, enforcado num rolo de fita cassete com um bilhete ao lado. Tinha ouvido falar de uma gravação de Zeca Pagodinho cantando Nirvana. Fita única. Enforcou-se quando soube que a fita havia se perdido num incêndio no apartamento do dono. Preferia morrer a não ter a fita do Zeca cantando Kurt. Dizia o bilhete: “Porque fiz isso? Pô, o Zeca é um clássico!”
É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.
Cá estou eu entre amigos e exposta ao mundo. Devo confessar que a sensação de ser lida me causa certo embaraço, mas isso é coisa de tímido. Porque tímido que é tímido tem vergonha até de se expor via blog! Vai que eu tropeço e caio na frente de vocês? Olha o vexame! Todo mundo comentando e rindo baixinho...e ainda tem aquele que entre uma gargalhada contida pergunta : “kikikikiki...machucou...kikiki?”.Por isso, sejam gentis, porque é a minha primeira vez...
Não é motivo para não querê-las...
Que triste os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!
(Mario Quintana)